segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Postagem 101

Acabo de perceber que ontem publiquei a postagem de número 100. Obrigada a todos que acompanham e torcem pelo meu trabalho. Então vamos a mais uma.

Fui despretensiosamente para a roda de terapia. Ainda estávamos nos aquecendo quando uma jovem disse: Eu não tenho nada pra comemorar. Estou com uma dor de cabeça a mais de 10 dias. Eu vivo a base de remédios, quase não durmo de tanta dor.
Eu perguntei se havia algo que a estava preocupando e que poderia estar desencadeando tais dores. Ela disse que tem problemas, mas que eles não teriam relação alguma com suas dores. Eu insisti: aqui acreditamos que o que não falamos pode virar dor. Você quer compartilhar o que a está preocupando? Então ela começou a falar.
Ela e suas filhas voltaram a morar com a mãe (são oito pessoas na mesma casa) e a sua vida está um inferno. Logo no início ela começou a chorar, dizendo: “eu não tenho vontade de voltar pra casa”. Ela tem um filho que mora com o pai e que acha que a mãe o abandonou. “Eu não o abandonei, eu só não posso levar 3 crianças pra casa da minha mãe... Eu me sinto incapaz, tudo que eu faço não tá bom”. Ela falou por um tempo e chorou bastante.
Depois ouvimos histórias de mulheres que, como ela, tiveram que voltar para a casa dos pais com os filhos. Outras partilharam a dificuldade de morar com pais depois de adulta ou de não ter condições de ter uma casa, pois não tinham uma colher pra por dentro da casa. Todas elas superaram, foram à luta. Saíram de porta em porta buscando um barraco pra alugar, saíram da casa dos parentes ou deixaram os maridos. Assim, sozinhas, elas criaram os filhos hoje os filhos adultos são parceiros de caminhada.
Uma participante concluiu dizendo: “nada como um dia após o outro com uma noite no meio”. Eu fui pra casa pensando que gostaria de ser uma milionária alienada, ou alguém verdadeiramente engajada, uma assistente social. Fico me perguntando se apenas oferecer a escuta é suficiente. Eu sei que não é suficiente, mas também sei que é essencial. Uma coisa é certa: eu aprendo mais com essas pessoas o que elas comigo!

domingo, 28 de agosto de 2011

Como nascem os Paradigmas - Grupo dos Macacos





Esta pesquisa me faz lembrar como repetimos valores e preconceitos a partir do que aprendemos dentro da família, onde desenvolvemos habilidades sociais para nos tornarmos quem somos. Na família também aprendemos a repetir padrões de comportamento, formas de agir, pensar e sentir. É no contexto familiar que aprendemos a empatizar ou não com o outro, a sermos preconceituosos, sem nunca termos vivenciado experiência desagradável (banho de água fria) com certas classes sociais.
É preciso refletir sobre o que é meu e o que é dos outros. É difícil, mas possível, descobrirmos o que não nos pertence mais. Às vezes precisamos abrir mão de algumas heranças parentais para descobrirmos nossa forma de ser no mundo. Estou segura que a nova forma de ser sempre terá influencias da nossa história. Afinal, por pior que seja a família, é esta que temos e aprendemos a amar e odiar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Não consigo perdoar minha filha


Em outra oportunidade esta mãe contou ao grupo sobre a dificuldade que ela tem em aceitar a gestação da filha. Agora, com 8 meses de gestação, os conflitos continuam. Uma frase se destacou na sua fala: Eu quero ir até ela, quero abraçar, mas há algo que me segura...eu não consigo. Na sequencia outra participante da roda disse que a dificuldade dela em perdoar foi superada, porque ela pediu a Deus que lhe desse um coração maleável. Outra disse que conversar é a melhor solução: as vezes a realidade não tem nada a ver com o que passa na nossa cabeça.
Uma terceira participante contou, em detalhes, a sua história que é muito semelhante. Ela relatou que enfrentou tudo e todos para defender sua filha que engravidou aos 15 anos. Hoje o neto já tem 16 anos. Ela disse para a participante que está angustiada: Eu sei exatamente o que você está passando, eu sofri, descabelei, chorei, tive vergonha, fui criticada. E hoje estou aqui, rindo do meu passado!
Mas e o perdão? E a dificuldade de acolher e abraçar? Ressaltamos que as pessoas mais difíceis de perdoarmos são aquelas que mais amamos, que depositamos expectativas em relação a elas. Nos decepcionamos porque temos expectativas em relação ao outro. Expectativa, decepção e perdão estão direta e proporcionalmente ligados.

domingo, 14 de agosto de 2011

Lançamento do Livro

O livro TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA SEM FRONTEIRAS foi organizado por Henriqueta Camarote, eu e Adalberto. A proposta deste livro é oferecer subsídios para que os estudiosos da TCI possam responder a algumas de suas inquietações e aprofundar as correlações percebidas com diversas referências teóricas.
Esta obra representa uma convergência de diferentes olhares, princípios e práticas desta metodologia. Os articulistas, de nacionalidades e abordagens diversas, atuam com a TCI em vários contextos sociais. Os capítulos estão organizados em três partes: Filosofia e Ciências Humanas, Abordagens Terapêutica e Aplicações nas Políticas Públicas da Saúde e Educação. Este livro contou com o apoio do Movimento Integrado de Saúde Comunitária do DF.
O livro será lançado no dia 31 de agosto, na primeira noite do Congresso de TCI, em Santos-SP. Em breve lançaremos em Brasília e Fortaleza.

Que pai é você? (vale pra mãe)

No passado, não muito longe, as mães eram as responsáveis pelo desenvolvimento emocional, psíquico, cultural, físico e social de seus filhos. Aos pais cabia apenas sustentar e demonstrar seu afeto não deixando faltar nada. Quando eu era criança, recentemente (sorrisos), os pais já começavam a ocupar outros espaços na educação de seus filhos: conversava, orientava, abraçava. Hoje, a distribuição dos papeis está mais equilibrada.
Eu sinto que hoje os papeis estão menos definidos, e isso é bom! As bulas, que orientavam o papel do pai e o da mãe, estão ficando mais parecidas. Alguns papeis nunca mudarão, principalmente na primeira infância, pois quando o filho é bebê a mãe fica meio misturada com ele, bem mais que o pai. Conforme o bebê cresce cabe ao pai dizer: "essa mãe é sua, mas a mulher é minha!"

Estou dizendo que pai e mãe têm funções diferentes, mas podem fazer as mesmas coisas. Desempenhar papeis é diferente de ter função de pai e de mãe. Tanto pai quanto mãe podem dar carinho, levar ao cinema, corrigir, orientar, por limites, amar... Mas a função materna e a paterna são distintas. O que não impede que na falta de um o outro ocupe as duas funções.
Mas nem tudo são flores ainda há muitos filhos que não sabem quem são seus pais, outros têm na figura paterna a encarnação da violência e do vício. Há filhos que não sabem o que é conversar com o pai. Vejo isso nas rodas de Terapia com os adolescentes. Mas também vejo pais tentando resgatar este espaço com os filhos na Terapia com adultos.
O outro extremo da classe média e alta é de pais submissos aos filhos. Um pai sem autoridade, no meu ponto de vista, não é um pai, é um tolo. O pai precisa assumir o seu lugar de pai, mas alguns acham que os filhos são tão importantes que não podem ser contrariados. Estes pais criam reizinhos tiranos, princesinhas tiranas, filhos sem limites.
Como eu sempre digo: criar filhos é fácil, difícil é educá-los! Sempre há tempo para recomeçar. Para reconhecer o poder que tem um pai na vida de seus filhos. Que pai é você? O agressor e tirano? O submisso e inseguro? Ou o pai que busca o equilíbrio?

domingo, 7 de agosto de 2011

Quando sou impotente para ajudar alguém que amo

Esta sexta foi muito especial porque o tema escolhido foi o de uma participante que está na roda desde a sua fundação, 3 anos, e esta foi a primeira vez que ela trouxe um problema para a roda. Esta senhora é uma excelente observadora, após um ano participando regularmente das terapias ela começou a falar no momento de partilha. De lá pra cá aprendemos muito com suas experiências, uma pessoa amorosa, divertida, dedicada à família ... uma lutadora. Foi preciso 3 anos para que ela pudesse abrir seu coração e chorar diante de todos.
Iniciamos a roda fazendo massagem nas mãos, tocando nossas mãos e falando o que podemos fazer com as mãos. Na transição para a escuta dos temas eu perguntei: o que você gostaria de fazer com as suas mãos e não pode?
Nossa querida participante tem uma neta, filha do seu filho que faleceu no ano passado. Ela está vendo a neta sair da escola e ficar sem estudo, sem um futuro. Porém a mãe da menina é a responsável legal e parece não orientar a filha de forma adequada. A avó diz sofrer e se sentir impotente diante do que está acontecendo. Ela gostaria de estender sua mão e conduzir a neta para um futuro melhor.  No grupo ela pode nomear seus sentimentos, verbalizando entendeu  melhor o que se passa dentro dela.
Ao abrir para a partilha eu perguntei: quem já se sentiu impotente em relação a uma pessoa querida? Outra participante contou que está passando pela mesma situação. Dois sobrinhos foram assassinados por gangue e a irmã deles está indo por caminhos semelhantes. Esta tia sofre porque não pode fazer muita coisa por esta menina, que mora com a mãe que não tem autoridade sobre a filha de 13 anos, que também abandonou a escola.
Quando vemos alguém que amamos, nosso sangue, ir por caminhos tortuosos sentimos uma dor imensa. a dor ainda pode ser mais complexa se não podemos fazer nada para ajudar. Nossa vontade é de tomar a pessoa pela mão e conduzi-la pelo bom caminho. Estendemos a mão mas a mão não alcança a pessoa. Cada um tem uma história pra viver e normalmente não podemos impor nossos ideais aos que amamos. Nesta roda não encontramos uma solução para os problemas. Apenas ouvimos as duas com muita atenção. Ao final expressamos nossa solidariedade e destacamos o amor que elas têm pelos seus familiares.

domingo, 31 de julho de 2011

Três anos de TCI em um órgão público

Nossa roda com os adultos, nesta semana, foi de celebração. Éramos mais de 40 pessoas reunidas. Não foi uma roda de TCI, mas de "causos". Numa primeira rodada falamos sobre o que tínhamos a comemorar: aniversários, aprovações, superações, vitórias, aprendizados e alegrias. Depois abrimos para os "causos", foram histórias do passado, gente que não passou fome ou dormiu na rua porque achou dinheiro na rua. Cada história era ilustrada por uma música ou por uma piada.
Neste dia falamos dos vícios e desgraças da vida de uma forma engraçada. Um dos temas foi o alcoolismo, não falamos, neste dia, das tristezas e mortes que o vício impõe às famílias. Contamos piadas de bebuns que fazem de tudo por uma bebida.
Há alguns participantes que estão na roda desde o primeiro encontro, outros já não trabalham mais por ali e muitos novos chegaram. Em três anos percebemos que os participantes aprenderam a falar mais de si, a se  conhecerem melhor, a ensinarem com suas experiências. Eu percebo melhoria nas habilidades sociais como falar em público e saber ouvir sem criticar ou aconselhar. O que antes estava misturado (o que é meu e o que é do outro), nos últimos tempo, tem ocupado lugar distinto na vida das pessoas, cada coisa no seu lugar. Os participantes da roda começam a perceber que cada pessoa é uma e que o ponto de vista de uma nunca é o mesmo da outra. É muito bom ver as pessoas crescendo juntas e eu tenho aprendido muito com este grupo, que para mim vale ouro.

sábado, 23 de julho de 2011

Violência doméstica e o sofrimento dos filhos

Hoje tivemos uma roda de Terapia com os adolescentes. Um garoto disse: As brigas dos meus pais me tiram o sono. Foi como pipoca na panela, uma estourando após a outra. Vários meninos contaram suas experiências. Pais que se separaram em função da violência, mães que apanham de padrastos, tios que espancam as tias, mães que maltratam os filhos.
Enquanto eles falavam um misto de tristeza e amor materno me invadia: Meu Deus! Se eu pudesse tirá-los deste ambiente...como posso aliviar estas dores...será que o que eu faço faz alguma diferença? Então eu agi, como diria Winnicott, de forma espontânea e cuidadora.
Eu ouvi atentamente cada história. Tentei ajudar cada um a nomear os sentimentos em meio a esses contextos de violência. O clima foi ficando sério, pesado, os garotos que riam e debochavam dos outros se calaram, por respeito e identificação com o tema. Eu perguntava no momento da partilha: você sabe o que sente o fulano ao ver os pais brigando porque você também sentiu medo, não é?
Dois garotos apresentaram a forma como a família superou: Nós deitávamos todos juntos e chorávamos juntos. Um dia, que a minha mãe tava calma, nós falamos que não agüentávamos mais tanta violência, que ela tinha que parar, antes que algo pior acontecesse...ela teve agente muito nova, não tava preparada, ela fazia coisa que nenhuma mãe faz. A partir desse dia tudo começou a mudar.
Outro menino contou que os pais separaram após vários espancamentos mútuos. Sua mãe se casou novamente, agora são evangélicos, resolvem as diferenças conversando e que o casamento deles se fortalece a cada dia e o amor aumenta. Outros participantes ainda não superaram, continuam vivendo com medo.
Concluímos que é muito triste viver a violência em casa, que as marcas (os traumas) ficam. Chamei a atenção para o fato de que alguns deles têm reproduzido a violência com os colegas e irmãos. A conotação positiva foi para a força que eles têm para continuarem vivos e cheios de vida em meio à violência. Ao final tentei falar de paz, todos falaram palavras positivas como: esperança, paz, educação, respeito, alegria, harmonia, diversão, tranqüilidade. Terminamos de mãos dadas e com um grito coletivo da palavra AMOR!
Saiba mais sobre a violência doméstica infantil no Brasil: http://sites.google.com/site/violenciainfantilturma3107/violencia-domestica-infantil

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O terapeuta comunitário atuando com adolescentes e crianças

Considero essencial a postura do terapeuta comunitário no trato com crianças e adolescentes, mais central que numa roda com adultos. Este meu argumento se baseia no fato de que os pequenos participantes ainda estão em formação, tanto física, como psíquica e moral. Estão em busca de modelos a seguir. Prova disso é a forma como eles vêm seus ídolos, eles idolatram incondicionalmente alguns cantores, grupos ou jogadores. No microssistema (bairro ou escola) eles se agregam em turmas ou gangues, que confirmem a identidade do grupo. Eles querem dizer quem são, qual o seu perfil.
Feita esta introdução digo que a figura do terapeuta é central, como modelo, padrão de valores a seguir, modelo de afeto, de respeito. O olhar confirmador do terapeuta, como a conotação positiva, pode desencadear um processo de mudança inimaginável. Mas é preciso que o terapeuta acredite que isso pode acontecer. Todos os jovens participantes de uma roda são resilientes e podem transformar suas feridas em pérolas.
O terapeuta demonstra que acredita no grupo antes de iniciar a roda, quando ele a prepara com antecedência. Observe a faixa etária, o perfil, os interesses eescolha a dinâmica apropriada para eles. Se errar...tente outra. Após a roda avalie SEMPRE, é muito importante, identifique o que deu errado e invista no que foi sucesso, eles adoram atividades repetidas, que eles já conhecem. Se eles gostaram muito de uma dinâmica, pergunte se querem repeti-la em outra roda. Mas tenha sempre um plano B. Prepare duas ou três dinâmicas para caso de eventualidades.
Durante as rodas, seja firme e amoroso ao mesmo tempo. Como? Cada terapeuta tem suas características. Se você é muito meiguinha encontre um parceiro que seja mais firme, menos flexível e vice-versa. Sempre cumpra o que prometeu, nunca prometa o que não pode cumprir. Seja flexível, mas com moderação. Tenha o controle total da terapia, exija que sigam as regras.
Vou contar uma historinha que aconteceu comigo: eu sempre cobro que sigam as regras, eles até criaram algumas como levantar a mão pra falar. Um dia eles estavam muito agitados e eu disse: meninos eu deixei meus filhos sozinhos e dirigi 30 quilômetros pra estar com vocês. Eu amo estar com vocês, mas quero ser respeitada, como eu respeito vocês. Se vocês continuarem com esta bagunça eu vou embora.
Acho que estávamos na escolha do tema quando eu pedi pela segunda vez por colaboração e silêncio. Então um deles foi muito desrespeitoso comigo. Eu disse: eu não admito ser tratada desta forma. Quero ser tratada com o mesmo respeito que trato vocês. Pequei minha bolsa e fui embora. No outro sábado eu não apareci, eu realmente estava chateada. Quando voltei...(me emociono ao lembrar) nunca fui tão bem tratada, aí eu retribui com abraços e beijos. Foi um dia especial pra mim!

sábado, 9 de julho de 2011

TCI com adolescentes e crianças

No último mês tenho recebido vários emails, de pessoas interessadas em conhecer mais sobre a terapia comunitária com crianças e adolescentes. Então, resolvi postar algumas repostas que tenho dado aos internautas (em duas partes).
Há pouca coisa publicada sobre a TCI com crianças, pelo menos até onde eu sei. Lançaremos um livro em agosto: A TCI sem fronteiras, no VI Congresso Brasileiro de TCI, de 31 de agosto a 3 de setembro, em Santos. Neste livro há um capítulo meu sobre a Terapia Comunitária e a sua importância na formação de novos padrões vinculares para crianças e adolescentes.
Já soube de rodas com crianças em que a escolha do tema, terminou em briga e terapia foi interrompida, acabou na votação. Houve empate na escolha do tema e os terapeutas refizeram a votação, os que queriam falar sobre o tema que não foi escolhido saíram da roda. Isso quase aconteceu comigo. O que eu fiz? Uma vez propus que no final faríamos outra roda pra discutir o tema com os interessados. No final da terapia, eu encerrei a roda e falei: agora vamos discutir o tema da quadra de esportes do bairro, quem quiser pode sair. Quase todos ficaram. Outra vez trabalhamos os dois temas, primeiro um e depois o outro; numa roda com temas semelhantes eu juntei os dois temas em um só mote, que contemplou as duas crianças e todo o grupo.
Aprendi que não podemos fazer uma roda de TCI com crianças sem preparo. Sente, pense, escolha a dinâmica apropriada para a idade, material necessário: papel, giz, barbante etc... A dinâmica deve ser a cara do grupo. Como faço com garotos, que querem jogar futebol logo após a roda, faço atividades/dinâmicas curtas. Porém, se você é professora...em uma sala de aula a dinâmica pode ser longa, se temos tempo e as crianças estão disponíveis, podemos estender a dinâmica. O tempo de duração também está diretamente relacionado à idade dos participantes. Se são crianças entre 6 e 9 anos, eu penso que a terapia não deve durar mais de meia hora. Mas se são adolescentes de 13 a 17 podemos estender o tempo e nos aprofundar, com perguntas que os ajudem a refletir mais sobre o tema.
A próxima postagem será sobre a importância e atitude do terapeuta numa roda de TCI com adolescentes.
Publicação que cita TC com crianças, espero que ajude os interessados:

sábado, 2 de julho de 2011

TC: possibilidades de resiliências

Após a dinâmica, que postei anteriormente, eu perguntei quem gostaria de desenvolver o que havia apresentado brevemente. Uma participante contou como tem sido difícil pra ela ver a sua filha mentindo. Ela disse que teve que pressionar a jovem a contar o que estava acontecendo: “eu já sabia que ela estava grávida, mas queria ouvir dela...eu fui a última a saber...” Acontece que a filha é muito jovem e engravidou de um homem bem mais velho. Esta mãe sempre falou com as filhas, são três, que não apoiaria nenhuma gravidez antes do casamento: nas palavras dela: “tem que assumir sozinha o erro que cometeu”. A própria mãe também engravidou cedo, casou-se com 16 anos e sofreu muito no casamento; "minha mãe nunca apoiou meus erros". A filha mais velha também engravidou cedo e fugiu de casa porque a mãe (a participante) não apoiou. Agora a segunda filha está com quatro meses de gestação. Enfim, o problema que ela trouxe é basicamente: “como vou contar pro meu marido? (que não é o pai desta segunda filha, apenas da terceira); terei que cumprir minha palavra e não apoiá-la, como minha mãe fez comigo. O pai da criança não vai assumir e minha filha nem trabalha ainda!” Perguntei ao grupo quem já havia passado por uma situação semelhante. Quase todos tinham algo a contar, três mulheres contaram que também engravidaram cedo e não tiveram o apoio da família. Cada uma agiu de uma forma diferente quando as filhas cresceram: Uma delas contou que a filha engravidou nas mesmas condições e a família a apoiou, vejo aqui uma família resiliente; Outra mãe disse que assim que a filha contou que não era mais virgem ela levou a filha e o namorado ao ginecologista, para orientações e preservativos; A terceira sempre foi uma mãe que falava de tudo abertamente, mas que põe limites para a filha, como horário pra chegar, a mais nova não pode namorar etc..., mas já deu preservativo para a filha mais velha e orientou a tomar remédio quando resolver iniciar a vida sexual: “eu cuido, mas sei que quando ela quiser vai fazer, quer eu queira quer não...e tudo que é proibido é mais atraente, então eu não proíbo, só oriento”. Apessoa que apresentou a questão ouviu estas e outras falas, inclusive de homens. Ao final ela disse: "continuo não aceitando, não vou apoiar este erro". Eu pedi pra ela acolher aquelas falas e pensar um pouco mais antes de agir. Percebo que cada ser humano percebe e elabora de forma única sua experiência de vida. Uma ressignificou seu sofrimento e, de forma resiliente, aceitou a gravidez da filha. A segundo agiu de forma preventiva e franca; a outra cuida para que não se repita a mesma história. Mas, numa roda de TC, observando a resiliência da outra é possivel reinventar formas diferentes de convivência em família, que não a dos nossos pais. Após duas semanas a participante pediu pra falar, na roda: "consegui contar pro meu marido, conversei com minha filha, eu não disse que iria apoiá-la, mas também não vou jogá-la na rua, né!". Muitas vezes é preciso romper com as tradições, deixá-las presas numa fotografia e fazer diferente!

terça-feira, 28 de junho de 2011

Uma dinâmica que favorece a expressão, a fala, no grupo

Após conhecermos os participantes de primeira vez, apresentarmos o que é a TCI e as regras, passamos pra uma dinâmica de apresentação e expressão de sentimentos. A ideia principal é que todos falem o porque de estar ali, como estão se sentindo naquele dia, o que esperam encontrar naquele grupo etc... O segundo objetivo é favorecer o acolhimento, fazer com que a pessoa se sinta apoiada, ouvida. Com todos em pé e de mãos dadas, na roda, um participante inicia a dinâmica colocando o pé direito à frente: Eu me chamo Fulana, hoje estou triste e peço o apoio do grupo! Todos colocam o pé direito à frente, dentro da roda, e dizem: Nós te apoiamos! Ao retornar ao lugar damos, todos juntos um passo para a direita, fazendo com que a roda gire, se movimente. O próximo, a direita de quem falou, coloca o pé à frente e diz: Eu sou Beltrano, vim aqui porque disseram que é muito bom e eu estou com alguns problemas lá em casa e peço o apoio do grupo. Todos, com a perna direita à frente, respondem: Nós te apoiamos! Após todos falarem nos sentamos e o terapeuta pergunta como foi falar e receber o apoio do grupo. Neste ponto já podemos partir para a escolha do tema, se três ou 4 pessoas desenvolvem o que foi dito na apresentação o terapeuta pode dizer: Podemos escolher um desses temas que vocês trouxeram para o grupo escolher um deles e discutirmos hoje? Eu nunca vi ninguém dizer que não quer ser ouvido um pouco mais sobre o seu problema. Eu gosto muito desta dinâmica. Porque de forma espontânea todos falam, até os que nunca falam em público começam a desenvolver esta habilidade. Em segundo lugar todos se sentem acolhidos, com seus problemas. A fala de um encoraja o outro a falar, da primeira à última pessoa percebe-se uma evolução nas falas, que vão ficando mais sinceras e profundas. Nesta semana a pessoa que trouxe o tema participava pela primeira vez de uma roda de Terapia Comunitária. Acredito que esta dinâmica favoreceu a sua expressão no grupo. Na próxima postagem vou contar sobre a angústia desta mãe e sua relação com sua família.

domingo, 5 de junho de 2011

Espaço para escuta, do luto por óbito fetal, em hospitais

Esta semana falamos sobre gravidez. Uma participante do grupo está grávida e compartilhou um pouco sobre suas expectativas em relação à maternidade. Então vou aproveitar pra postar o resumo de um trabalho que apresentei no CONPSI/2011, em Salvador.

Uma grávida carrega em sua bagagem inconsciente e gestacional todas as suas fantasias de menina segundo o modelo identificatório materno-feminino. Quando uma mulher dá à luz um filho saudável ela vivencia um luto em relação ao bebê imaginário. Porém, o luto materno por perda habitual de feto é ímpar. Óbito fetal é a morte do feto após a 20ª semana, quando a mulher sofre perdas fetais habituais ela é ferida narcisicamente. Para Freud o luto não é uma condição patológica é um sofrimento legítimo por alguma perda. O natimorto não possui certidão de nascimento, nem nome. Nomear o filho facilita o desinvestimento da mãe na gravidez anterior e investimento na atual. A nomeação do filho estrutura a percepção da mãe e organiza suas sensações. Esta apresentação tem como objetivo oferecer reflexões teóricas e práticas acerca da experiência de atendimento em grupo com gestantes que sofreram óbito fetal. Os atendimentos objetivam a prevenção e a promoção da saúde mental entre as gestantes. Os encontros com as gestantes acontecem no ambulatório pré-natal do Hospital Universitário de Brasília e são semanais. Identificou-se falta de reconhecimento social do luto por óbito fetal e de apóio dos profissionais e de iniciativa pública destinada ao enfrentamento dos problemas de saúde da mulher no cuidado com o luto. Os efeitos da negação do luto são nefastos para o psiquismo da mãe, pois obstrui a possibilidade de representação do filho, com prejuízo do teste de realidade. Sugere-se a criação de um espaço de escuta para que a mãe possa ressignificar os sentimentos vivenciados neste contexto, capacitação de profissionais da saúde.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Egoísta, eu?

Na semana passada o tema foi trazido por uma jovem estudante que tem participado do nosso grupo nos últimos dois meses. Segundo ela o seu namorado tem falado que ela é egoísta. Perguntei se ela concordava e ela disse: “Eu acho que sou egoísta mesmo!” Enquanto ela falava fizemos várias perguntas com o objetivo de que ela percebesse quando começou a agir desta forma, o que a levou a ser assim. Ela contou que quando era pequena passou um período muito doente, ficava internada por meses. Nesta época sua mãe ficava por conta dela, cuidando e paparicando. No momento da partilha um participante contou que por ter sofrido muito na vida decidiu ser egoísta e orgulhoso, como uma forma de se proteger. Nos relacionamentos amorosos ele diz não se entregar para não sofrer e que prefere que a parceira sofra. Outra pessoa contou que também se sente egoísta na relação com o marido e que ele reclama de suas atitudes. Parece que só identificamos nosso egoísmo na relação com o outro se estamos sós ou se alguém não nos mostra nossa postura não a percebemos. Por outro lado é complicado afirmar que somos egoístas só pelo olhar do outro. E se o outro for o egoísta da relação e quiser que eu ceda cada vez mais com este argumento? No caso trazido pela jovem ela se reconhece como egoísta e diz querer mudar para se relacionar melhor com o namorado e os amigos. Ela quer ver o lado do outro, o que parece ser muito saudável. Concluímos que quando o assunto é egoísmo devemos buscar o equilíbrio, nem tanto ao céu, nem tanto ao mar! Nem ficar com a coberta toda, nem ficar descoberto!

domingo, 29 de maio de 2011

Dinâmica de apresentação

Esta semana aprendemos uma dinâmica de apresentação. Com todos em círculo e em pé uma pessoa inicia a apresentação. Ela sai caminhando por fora da roda, enquanto todos podem, ou não, estar cantando uma música. A primeira pessoa para por trás da que escolheu, esta se vira e as duas se apresentam. Falando o nome e um adjetivo que comece com a mesma letra do nome. Por exemplo: Olá, meu nome é Regina e eu sou radiante; Muito prazer eu sou João e me sinto jovem! A primeira pessoa que caminhou passa a ocupar o lugar da que foi escolhida. A segunda sai e escolhe outra e se apresenta (pode nesta outra apresentação falar outra qualidade que possui) e assim sucessivamente. Achei interessante que todos ajudavam a outra pessoa a se qualificar positivamente. Algumas vezes cantávamos músicas com os predicados que as pessoas se davam. Após a segunda pessoa se apresentar e dizer, por exemplo: eu sou bonita. O grupo espontaneamente iniciava uma música com a palavra bonita. Mas esta parte fica a cargo da espontaneidade. Assim, além de ter uma qualidade reconhecida no grupo a pessoa ganha uma música! Após todos se apresentarem e se qualificarem podemos sentar e comentar como foi pra cada um falar publicamente uma ou duas qualidades que possui. Para algumas pessoas é super difícil o que torna um exercício rico. Se você fizer com o seu grupo me conte como foi!!

sábado, 7 de maio de 2011

Ser mãe...uma vocação de toda mulher?

Esta semana fizemos uma roda um pouco diferente, com um tema estabelecido: qual a sua experiência com a maternidade? Muitas mulheres partilharam ... Uma delas contou-nos sua experiência na luta por ser mãe com gravidez de alto risco, seu primeiro filho nasceu morto, a segunda gestação também foi de alto risco, na terceira ela engravidou com o DIU: "foram 8 meses de pavor!" Lá pelas tantas ela disse: "afinal o sonho de toda mulher é ser mãe!" Será? perguntei eu. Eu acho que a maternidade é uma opção, ou deveria ser. Aprendemos desde pequenas a brincar de boneca. Dizem que estamos ensaiando para ser mãe. Rubem Alves, como todo psicanalista, acha que brincadeira é coisa séria. Então, brincamos por brincar, não para ensaiar algo que faremos no futuro. É claro que no brincar desenvolvemos habilidades, mas este não é o objetivo da brincadeira. Brincamos de boneca porque todas brincam, não para aprender a ser mãe, como nossa mãe. Talvez apenas imitamos nossa mãe, como quando calçávamos seus sapatos altos. Ser mulher e ser mãe são dois lados de uma mesma moeda, como possibilidades de estarem juntas, mas não necessidade. Em nosso discurso os dois lados são apresentados como uma certeza! Eu acho que aprendemos que devemos desejar ter filhos, é um sonho aprendido! É importante dizer que não estou falando, apenas, de gerar ou parir filhos. Você pode parir e nunca ser visitada pelos sentimentos de angústia, medo, amor, ternura, saudade, responsabilidade, alegria, culpa e preocupação que fazem parte de toda maternidada. Mas pode sentir estes afetos maternais sem ter parido. Amo profundamente os meus filhos, é óbvio! Mas se eu não os tivesse minha vida não seria vazia. Uma mulher pode fazer mil coisas que não seja ter filhos. Se, por acaso, você tem dúvidas se realmente deseja ter filhos, não se envergonhe. Você é normal sim!!! Ser mãe não é vocação de toda mulher, é uma escolha. Eu amei a minha escolha, e você?

domingo, 1 de maio de 2011

"Todas as portas se fecharam para mim"

Uma roda de terapia comunitária que começou com um tema negativo transformou-se em uma roda positiva: confirmação das resiliências. Um participante da roda trouxe o tema de forma pouco específica, não contou detalhes. Disse que estava tentando resolver algo em sua vida e que todas portas haviam se fechado para ele.
Perguntei ao grupo: Quem já se sentiu como se todas as portas estivessem fechadas e como superou? A primeira fala foi de Ana: ela parou de trabalhar ao se casar. Quando seu marido foi demitido ela achou que não iria dar conta das dificuldades. "Eu ficava chorando dentro do quarto, estava com dois filhos pequenos, foi horrível!" Mas Ana conseguiu superar esta fase, voltou a estudar (terminou o segundo grau), tirou carteira de motorista, trabalhou como motorista de ônibus, foi funcionária de uma loja e comprou a casa própria.
Outra participante contou que um dia seu patrão disse: "não preciso mais dos seus serviços a partir de hoje". Ela disse: "pensei que meu mundo fosse desmoronar". Perguntei o que ela sentiu na época e o que sentia agora ao contar sua história. De acordo com ela "foi a melhor coisa que me aconteceu...minha vida é muito melhor hoje...se ele não tivesse me colocado na rua eu estaria na mesma situação até hoje".
Outras três pessoas também compartilharam suas experiências, na mesma linha: superação e vitória. Concluímos que quando as portas estão fechadas precisamos agir, bater em cada uma, até encontrar uma saída. Ao olharmos para trás identificamos as dificuldades que passamos e verbalizando as experiências, no grupo, reconhecemos nossas competências. Assim, acreditamos, mais uma vez, que somos capazes de abrir outras portas, quando todas parecem estar fechadas. Há um versículo que gosto muito: Quero trazer à lembrança o que pode me dar esperança!
O efeito de uma roda como esta para o grupo é muito forte. Além dos que falaram reconhecerem o quão são resilientes ajuda todos a relembrarem suas competências e se enchem de esperança para superar as adversidades. Descobrimos, todos, que é comum a todos viver dificuldades e superá-las. Afinal, a terapia é do grupo.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ambivalência na relação mãe e filha

Nossa última roda de TCI mobilizou quase todos os participantes. Uma participante contou-nos que descobriu ter uma doença, com a qual terá que conviver por algum tempo, disse que se sentia angustiada com a situação e sozinha por estar longe da mãe. Também compartilhou sentimentos que se alteram com certa facilidade, como alegria e tristeza. Ao abrir para que os outros pudessem contar suas experiências o tema foi naturalmente se focando na relação mãe e filha(o).
Vários participantes contaram como a presença da mãe é importante para a estruturação e equilíbrio do psiquismo: “minha mãe era tudo pra mim”. A relação mãe e filha é permeada por ambivalências. Para a psicanálise a ambivalência caracteriza-se por sentimentos antagônicos, presença de amor e ódio, aproximação e afastamento. Tais sentimentos estão presentes em toda relação que se desenvolve em profundidade. Especialmente na relação mãe e filha, porque nesta há muitos conflitos inconscientes que conduzem a conflitos, repletos de afetos. Como na fala de uma pessoa do grupo: “eu e minha mãe brigávamos muito...hoje somos muito amigas”.
Concluímos que a variação de sentimentos da pessoa que trouxe o tema não ocorre, apenas, porque ela está doente ou longe da mãe, mas que é uma característica de todo ser humano, assim como o angustiar-se em relação a algo que foge ao controle, no caso a doença. A Terapia Comunitária permitiu que os participantes se identificassem com este tema e reconhecessem suas ambivalências.

domingo, 27 de março de 2011

Uma dinâmica pra relaxar

Iniciamos nossa roda massageando nossas mãos. Você pode fazer os movimentos semelhantes aos da reflexologia, e todos repetem. Em seguida pedi que todos fechassem os olhos e espontaneamente continuassem massageando suas mãos. Enquanto isso, refletimos sobre o que fazemos ou poderíamos fazer com as mãos. Cada um foi falando o que veio a mente: "faço carinho em minha filha", "uma comida gostosa". Falamos sobre a capacidade que temos de abençoar ou não com nossas mãos.
Ainda com os olhos fechados, sentados e com os pés em contato com o chão convidei o grupo a massagear, simbolicamente, o coração. Nesse momento, em silêncio, cada um ficou conversando com o seu coração: como ele está se sentindo? Triste? Esperançoso? Angustiado? Com saudades? Do que o meu coração tá precisando? De amor? Conforto? Esperança? Alegria?
Poderíamos ainda refletir sobre a relação que existe entre o que eu faço (mãos) e o que eu recebo (coração). Ao final perguntei: O que seu coração te contou? Esta é a hora de você compartilhar com o grupo o que aperta o seu coração. Na Terapia Comunitária acreditamos que quando falamos sobre nossas angústias o coração fica menos apertado. O resultado foi a postagem anterior, sobre alcoolismo.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Histórias que se repetem...ou não!

O tema escolhido foi o de Ana: seu irmão está em crise de abstinência do álcool e tem apresentado alucinações persecutórias, o que desestabiliza e apavora toda a família. No momento da partilha um participante compartilhou sua história: meu pai bebeu a vida toda, hoje meu irmão também é alcoolatra e dá muito trabalho para toda a família. Outra participante contou que seu sogro bebeu por mais de 30 anos, como seu esposo, no período de abstinência ele teve muitas alucinações, mas que a família o apoiou e ele superou o vício por muitos anos. Uma terceira pessoa também tem um pai alcólatra, mas que ela quis construir uma família sem vícios, na casa dela não entra bebidas.
Percebeu-se que as histórias familiares se repetem: Pais com vícios observam que seus filhos desenvolvem vícios. Mas uma das participantes fez diferente na sua idade adulta. Falamos mais uma vez de resiliência. Quando somos feridos, magoados ou vemos nossos pais se destruindo, podemos crescer e fazer as mesmas coisas com os nossos filhos. Mas também podemos fazer diferente, podemos transformar nossas dores em alegrias. Quem nunca recebeu amor pode ser profundamente amoroso com os filhos.
Na terapia comunitária percebemos que temos a nossa frente um quadro em branco e que não precisamos copiar o que nos foi ditado. Podemos, com muito esforço, escrever algo novo. Ao fecharmos a roda convidei cada um a pensar na sua família e quais comportamentos se repetem. Depois refletimos sobre o que cada um tem feito inconscientemente que é idêntico aos comportamentos que antes eram criticados. Por fim pedi que todos ficassem atentos aos seus sentimentos e ações no decorrer da próxima semana.

terça-feira, 22 de março de 2011

Páscoa: o sol vai nascer outra vez!

O Cristo se fez carne e habitou entre nós, morreu e ressuscitou. A ressurreição é uma das metáforas mais belas e que me enche de esperança. A mitologia e a literatura estão repletas desta simbologia. Até a natureza nos fala da metamorfose: a lagarta se transforma em borboleta. Outra metáfora da ressurreição.
Gosto de uma frase: "O destino da lagarta é ser borboleta". E o destino (se é que estamos predestinados) do ser humano é transformar-se em algo melhor. Cada dia que o sol nasce Deus nos dá uma nova oportunidade de fazer um dia diferente do de ontem. Pra onde quer que eu olhe vejo mutação, a transformação, a possibilidade. Todo dia é uma oportunidade para nos transformarmos.
Que nesta Páscoa, você aproveite para fazer como Jesus, que renasça em você uma nova forma de viver, deixando para trás as coisas que não fazem bem a você e aos outros. É preciso ficar atento, como na foto, o homem está em pé olhando o nascer do sol. É preciso que você enxergue a oportunidade para a transformação. Se você não conseguir hoje, não se preocupe porque ... "é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei!"

segunda-feira, 21 de março de 2011

"Só reconheço no outro o que conheço em mim"

A história do Raimundo se confunde com a de muitos Raimundos. Mas a história dele é ímpar, porque só ele a conhece do seu ponto de vista. O participante desta semana veio do Maranhão, sua mãe faleceu no parto de seus irmãos gêmeos, deixando cinco filhos. Um ano depois, o pai ganhou o mundo e nunca mais voltou. As crianças foram criadas pela avó e ele se sentiu desamparado. A questão que ele trouxe para a roda foi: "todo lugar que vou ou trabalho fico incomodado quando vejo pessoas sendo injustiçadas...eu sempre quero proteger as pessoas...um dia eu me joguei na porta do ônibus, para que ela não se fechasse numa criança, fiquei todo machucado". Para transmitir o que eu sentia enquanto ele nos contava, usei como recurso recontar a sua história na primeira pessoa, com algumas interpretações. Por exemplo: "eu me joguei na porta do ônibus, porque não tem problema eu me machucar, afinal a vida já me machucou tanto! ... eu queria proteger aquele garoto, porque quando eu precisei de proteção, ninguém me protegeu!" Em seguida perguntei: você sente que é a mesma história? Ele disse que sim. Então trabalhamos a projeção que ele faz quando se incomoda tanto com as injustiças que identifica. Parece que o Raimundo sofre com as muitas injustiças que presencia porque ele se sente injustiçado pela vida. Algumas vezes eu não percebo que quando defendo uma causa é porque ela é, antes de qualquer coisa, a minha causa. Um dos princípios da TCI é que eu só reconheço no outro o que eu conheço em mim. Se isso é verdade, de alguma forma, o outro é meu espelho. Então, é na relação com o outro que eu me reconheço. A TCI permite que cada participante, inclusive o terapeuta, se compreenda melhor.

sábado, 12 de março de 2011

Resiliência: Rejeição e amor próprio

Iniciamos a roda com uma dinâmica muito especial, conduzida por um colega, terapeuta corporal. Ele apresentou a atividade como uma vivência de aceitação e conduziu o grupo a aceitar a sua realidade (família, amigos, trabalho, colegas, salário, adversidades etc...). Após este momento fizemos uma avaliação e tiveram a oportunidade de falar como se sentiu na vivência. Então abrimos para a contextualização. Aproveitei o gancho sobre a aceitação da vida como ela é e perguntei: Qual a sua maior dificuldade de aceitação? Dentre as dificuldades apresentadas o grupo escolheu trabalhar a questão de Paula (nome fictício), que não aceita a forma como a mãe a trata: com menosprezo. Paula conta que desde criança se sentia rejeitada por sua mãe, hoje, já adulta a rejeição é ainda maior, sua mãe desconsidera até as netas. Percebi que o tema havia mudado: de aceitar a mãe para ser rejeitada por esta. Então perguntei ao grupo: Quem já se sentiu rejeitado (a) e como fez para superar? Todos começaram a pipocar, a se identificar com o tema, houve vários depoimentos, mas uma história me chamou atenção: Um rapaz contou que sua mãe o deixara em Minas, com a tia, quando ele tinha um ano e treze dias. Aos 13 anos ele veio morar com os pais, uma família estranha. Ele não conhecia os pais. Nunca mais voltou pra sua terra e hoje ele disse que aprendeu que deveria se amar. "Vi que ninguém me amava, então resolvi gostar e cuidar de mim". Jesus nos ensina que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmo. Isto quer dizer que só podemos amar o outro se nos amarmos primeiro. Amando a si ele poderá amar os outros e quando tiver seus filhos poderá amá-los. Parece que este participante está no caminho certo, rompendo o ciclo vicioso da falta de amor. Percebi neste jovem um exemplo de resiliência, ele foi capaz de transformar a falta de amor, em amor por si e pelos outros.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Quando o medo de sofrer paralisa

Algumas vezes o medo de vivenciar tudo que já nos fez sofrer nos paralisa, mesmo quando não temos consciência disso. Nesta semana uma participante muito querida, que está no grupo desde 2008 nos conta que está muito angustiada com a possibilidade de reaproximação com o ex marido. A separação fora muito dolorosa, por traição, agora ele almoça lá todos os dias e pediu a chave da casa. Ela tem dificuldades de dizer não e quando o faz se sente culpada. Assim, ele foi chegando e ela paralisando. Por medo de uma nova rejeição ela não consegue agir/reagir. Forma-se um círculo vicioso, quando as sensações provocam mais medo e o medo provoca mais sensações, que provocam... por defesa ficamos como uma estátua, imóvel. Quando paralisamos, ficamos vulneráveis, permitimos que o outro se aproxime e controle a situação. É preciso, de alguma forma, sair da zona de “conforto”. Tirar as amarras e caminhar livremente. Acredito que medo pode ser desejo. Medo de reatar seria desejo de reatar. Medo de sofrer seria desejo de sofrer tudo outra vez. Quero deixar claro que estou falando de um nível inconsciente, não é racional. Conscientemente ninguém quer sofrer, se punir, ou achar que merece pagar por algo. Quanto a nossa amiga, eu penso que a pergunta não deve ser: eu devo reatar com ele? Penso que a pergunta deveria ser: eu quero reatar? E agir, caminhar, em função da resposta. Se eu quero reatar eu posso arriscar. A beleza da vida está em arriscar-se, lançar-se para experimentar o novo, ou dar uma nova chance ao velho. Imobilizado (a) pelo medo você não pode viver livremente. Ao final da nossa roda eu disse à participante: seja qual for a sua escolha a faça com dignidade e respeito por si. Seja qual for a sua escolha a faça por você e por mais ninguém!

Formação em Terapia Comunitária pela Prefeitura de Guaxupé

Há quase um ano a Prefeitura de Guaxupé trouxe para a cidade o curso de Terapia Comunitária. Uma aposta da atual administração com um objetivo muito simples e ao mesmo tempo muito ousado: capacitar gente para ouvir gente. É claro que isso é uma definição muito simplificada e até pequena diante da grandiosidade do projeto. A definição de Terapia Comunitária é bem mais complexa do que isso: “é uma abordagem terapêutica em grupo com a finalidade de promover a atenção primária em saúde mental. É um espaço de partilha de sofrimentos e descobertas, privilegiando o saber e a competência, construídos pelas experiências de vida do indivíduo, da família e da comunidade. Estimula o grupo a consolidar vínculos e “empoderar-se”.

De forma prática, a Terapia Comunitária é um instrumento de transformação de vidas, especialmente de vidas em estado de vulnerabilidade, seja social ou emocional e não necessita da intermediação de um psicólogo. O curso foi composto por 4 módulos, com uma carga horária de 160 horas de teoria e vivências, 120 horas de práticas em Terapia Comunitária e 80 horas de Intervisão. Na noite da sexta-feira, 26 novos terapeutas comunitários se formaram. A cerimônia aconteceu no Teatro Municipal e foi marcada por depoimentos emocionantes e pela empolgação de todos ao apresentar resultados impressionantes como a diminuição e até a interrupção do uso de medicamentos de pessoas que participam de algum dos 8 grupos que a cidade já conseguiu formar. Todos os alunos, hoje terapeutas, são unanimes em destacar a mudança que a participação no curso promoveu em suas vidas e que todos têm um novo olhar sobre o valor da conversa, sobre o valor de se compartilhar a vida com outras pessoas e especialmente do valor de se implantar vários núcleos de terapia comunitária em toda a cidade. A Terapia Comunitária teve sua efetividade comprovada pelo SUS e será adotada nas Unidades Básicas de Saúde. Nesse sentido Guaxupé está um passo à frente da maioria dos municípios brasileiros e a previsão é que em breve, uma nova turma para o curso será aberta e com mais profissionais capacitados, mais comunidades serão beneficiadas. Fonte: Prefeitura de Guaxupé

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pipoca na panela...pipoca aqui, pipoca ali!

A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é como uma panela aquecida e nós, o milho que começaria a pipocar. Na nossa roda de TCI aconteceu mais ou menos isso. Uma pessoa disse: "Eu sempre fui rejeitada pelos meus pais...minha mãe deixou meu pai, depois eles arrumaram outros parceiros e ninguém nunca me deu carinho...ainda hoje eu sou muito carente". Quando eu perguntei ao grupo quem havia recebido carinho de menos, foi um monte de pipoca estourando na terapia. Muitos queriam falar e sei que todos tinham o que contar. Um rapaz foi criado sem o pai, que fazia falta, mas ele passou a valorizar o que ele tinha: o amor da família materna e não o que faltava. Outra participante contou que sua mãe fora embora de casa quando ela tinha 6 meses e foi criada por madrastas, avós, madrinhas. Depois ela disse: "eu dei para os meus filhos todo o amor que eu não recebi". Falamos sobre sua resiliência, a capacidade de transformar carencia em competência. Uma terceira fora adotada e disse que nunca recebeu amor como as irmãs, filhas legítimas. Nós ressaltamos o fato de ela ter sido amada duas vezes, pela mãe que lhe deu a vida e quis proporcionar lhe uma vida melhor e pela mãe adotiva que a escolheu como filha, para amar. Outra contou que a mãe nunca lhe deu um abraço: "ela esqueceu até do meu aniversário. Mas este ano ela me ligou e disse que me amava". Três mulheres falaram das preferências de sua mãe ou pai por outros filhos que não elas. Uma senhora, com mais de 60 anos, emocionou-se ao lembrar que sua mãe:"até no leito de morte, amou mais o meu irmão que a mim, que sempre estive ao seu lado". Ao final eu agradeci a pessoa que trouxe o tema, pois nos deu a oportunidade de refletirmos sobre nossas carências. Todos temos um buraco, uma falta dentro de nós, todos sem exceção! A TCI traz à luz o que está escondido para identificarmos o buraco (a falta). Descobrimos, na TCI, que outros tem uma ferida parecida. Há sempre outra pipoquinha, com a mesma dor, estourando na panela.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Moisés de Queimados

Canções, viagens e reflexões: O Moisés de Queimados: "Foi ontem, dia 17/02/2011, de manhã. Um policial do 24º BPM (Queimados) resgatou um recém-nascido que fora jogado em um valão da Travessa Do..."
Achei o texto do Daniel muito legal! Uma reflexão sobre o bebê jogado nas águas de um rio em Queimados.
É difícil, quase impossível, entender como uma mãe pode agir assim. Penso que qualquer uma de nós que tivesse vivido a vida desta mulher e tivesse a sua estrutura psíquica poderia ter tido esta atitude. Parece que ela não deu conta de lidar com a maternidade. Como esta jovem foi desejada por sua mãe? Pode ser que parir e ver aquele bebê, em um contexto que sabe Deus quão difícil foi, despertou fantasmas inconscientes de seu nascimento. Teria ela sido violentada? Estaria em depressão? Quando pensamos nas adversidades pelas quais pode ter passado esta mulher mudamos o nosso olhar. Ao invés de criticar nos compadecemos.
Melhor não julgar... poderia ser qualquer uma de nós!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Quando o estranho nos fascina

Em nossa roda de TCI, com os adultos, tivemos um tema bastante forte. Como comentou uma participante, após a terapia: “eu nunca vi uma coisa tão cabulosa”. O diferente causa estranheza e atrai. Havia muitos novatos, éramos 18 participantes com sete novatos. Expliquei detalhadamente como funciona uma roda de Terapia Comunitária, temos regras, tempo pra celebrar, pra brincar/confraternizar e um momento de falar sobre o que nos tira o sono, nos preocupa e um desses temas apresentados seria o escolhido naquele dia. O tema que a maioria quis discutir foi trazido por uma novata, mãe de um único filho. Ana (nome fictício) compartilhou que não aceita a companheira do filho e nem os três filhos do casal. Ela nunca conversou com a moça, a viu apenas uma vez, e nunca viu nenhum dos netos. Disse que não suporta nada que diz respeito a este assunto, mas que tem gastrite e perde o sono por conta deste conflito. É impressionante como a maioria das pessoas tentou julgá-la, criticá-la, especialmente porque não há uma causa real, consciente para a rejeitar a família do filho. Foi difícil manter o controle do grupo. Quando todos ficam chocados com o tema escolhido é de se perguntar: por que escolheram este se havia outros temas? Seria curiosidade em relação ao que foge a regra? Ou o grupo queria dar oportunidade para a participante elaborar melhor a sua dificuldade? É impressionante como o estranho nos horroriza e nos fascina, ao ponto que querermos saber mais e mais. Ao final, convidei a participante a trazer o seu tema outras vezes para que ela possa identificar a origem da sua dificuldade e quem sabe superá-la. E quem sou eu pra dizer algo mais!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TCI e adolescência: Buscando o equilíbrio


Em fevereiro reiniciamos a TCI, com o grupo com adolescentes. Em nosso primeiro encontro havia 17 garotos, entre 9 e 17 anos. A maioria deles está repetindo de ano. Percebemos que eles não têm modelos que os motivem a estudar. Nossa primeira roda de 2011 foi sobre qual a meta de cada um para este ano que se inicia.
Com apenas duas ou três exceções, os garotos são repetentes. Após comemorarmos os aniversariantes do mês fizemos uma rodada sobre o que cada um deseja realizar neste ano. No início foi difícil pra eles, mas eles são brilhantes e logo pegaram o jeito e falaram muuuuito.
Quando cada garoto estabelecia sua meta eu perguntava: e o que você precisará fazer para realizar este sonho? Ou: Se você não passou de ano e quer passar, o que faltou você fazer, ou deixou de fazer em 2010? O que você acha que precisa fazer diferente em 2011?
Outro aspecto me chamou atenção na fala dos meninos. Há um certo radicalismo nas falas. Por exemplo: Eu quero parar de falar! Eu o ajudava a encontrar o equilíbrio e estabelecer metas mais acessíveis: Você não precisa para de falar, por acaso você está querendo dizer que pretende falar menos? Em todos os lugares ou só durante as aulas?
A busca do equilíbrio é algo muito difícil, na TCI o participante aprende que pode mudar de atitude em relação à vida, estabelecendo pequenas metas. Afinal, "uma grande caminhada, começa com um pequeno passo".

A TCI na Argentina

Las inscripciones están abiertas, capacitate para actuar en comunidad.Los días 18 y 19 de febrero de 2011, se realizará en el auditorio del Parque Temático Vial de calle Joaquín V. González, dentro del Hipermercado Libertad, la formación y disertaciones sobre SENSIBILIZACIÓN EN TERAPIA COMUNITARIA, las ponencias estarán a cargo del experto brasileño y creador de esta terapia Dr. Prof. Adalberto de Paula Barreto. La sensibilización en Terapia Comunitaria permitirá conocer el trabajo comunitario que se viene desarrollando en Brasil en el campo de la salud pública, en particular de la salud mental, con el apoyo del Ministerio de la Salud, y también para discutir una propuesta de formación de terapeutas comunitarios en Godoy Cruz, Mendoza. El objetivo de la formación en terapia comunitaria es capacitar personas que actúan o que desean trabajar en la comunidad, para perfeccionar sus habilidades y conocimientos, potenciando su destreza para la movilización, concientización y organización de los grupos sociales con quienes interactúan. La sensibilización contará con la participación del Profesor Dr. Adalberto de Paula Barreto, de la Universidade Federal do Ceará, él es psiquiatra y antropólogo, creador de la Terapia Comunitaria; el Prof. Dr. Rolando Lazarte, sociólogo, escritor, miembro del grupo de estudios e investigaciones en Salud Mental Comunitaria de la Universidade Federal da Paraíba y miembro de la dirección de la Abratecom-Asociación Brasileña de Terapia Comunitaria, y la Profesora Dra. Maria de Oliveira Ferreira Filha, docente del Programa de Posgrado en Enfermería de la Universidade Federal da Paraíba, líder del grupo de estudios e investigaciones en Salud Mental Comunitaria y miembro del equipo de enfermeras experts en salud mental de las Américas de la OPS/OMS. Todos terapeutas comunitarios. Inscripciones abiertas, cupos limitados, participación libre y gratutita. A partir del día 7 de febrero de lunes a viernes de 9 a 13 horas Desarrollo Social Municipalidad de Godoy Cruz. Fonte: http://www.godoycruz.gov.ar/sitio2/?p=3219 Enviado por Rolando Lazarte

domingo, 30 de janeiro de 2011

TERAPIA DO ELOGIO por Arthur Nogueira (Psicólogo)

Renomados terapeutas que trabalham com famílias, divulgaram uma recente pesquisa onde se nota que os membros das famílias brasileiras estão cada vez mais frios, não existe mais carinho, não se valoriza mais as qualidades, só se ouve críticas. As pessoas estão cada vez mais intolerantes e se desgastam valorizando os defeitos dos outros. Por isso, os relacionamentos de hoje não duram. A ausência de elogio está cada vez mais presente nas famílias de média e alta renda. Não vemos mais homens elogiando suas mulheres ou vice-versa, não vemos chefes elogiando o trabalho de seus subordinados, não vemos mais pais e filhos se elogiando, amigos que fazem elogios. Só vemos pessoas fúteis valorizando artistas, cantores, pessoas que usam a imagem para ganhar dinheiro e que, por consequência, são pessoas que têm a obrigação de cuidar do corpo, do rosto e sempre se apresentar bem. Essa ausência de elogio tem afetado muito as famílias. A falta de diálogo nos lares, o excesso de orgulho, impedem que as pessoas digam o que sentem, levando assim essa carência para dentro dos consultórios médicos. Acabam com seu casamento porque procuram em outras pessoas o que não conseguem em casa. Vamos valorizar nossas famílias, amigos, alunos, mestres, subordinados. Vamos elogiar o bom profissional, a boa atitude, a ética, a beleza de nossos parceiros ou nossas parceiras, a sinceridade, a lealdade, a confiança, o comportamento de nossos filhos. Vamos observar o que as pessoas gostam. O bom profissional gosta de ser reconhecido, o bom filho gosta de ser reconhecido, o bom pai ou a boa mãe gostam de ser reconhecidos, o bom amigo, a boa dona de casa, a mulher que se cuida, o homem que se cuida, enfim, nós todos vivemos numa sociedade em que um precisa do outro, em que é impossível viver sozinho, e os elogios são a motivação da nossa vida. Quantas pessoas você poderá fazer feliz hoje, elogiando-as de alguma forma? Declarando-lhes amor, agradecendo a companhia, elogiando seu trabalho, sua maneira de ser!

Como será o amanhã?

Todos dizem que o tempo tá passando mais rápido. O ano mal começa e de repente, já acabou. O presente só existe por um breve momento, cadê o presente? Já passou! E o futuro? A Deus pertence? Quando somos jovens e desejos em realizar sonhos somos mobilizados pela pergunta: Como será o meu amanhã? Vou me realizar profissional, afetiva, espiritual e financeiramente? Este foi o tema da nossa roda na semana passada. Um jovem ansioso em relação ao seu futuro. Mas enquanto ele falava e nós o ajudávamos a nomear os seus sentimentos ele descobriu que o que o incomodava naquela tarde era sua vida amorosa. Segundo ele sua namorada não tem a mesma perspectiva de futuro que ele. Então abri para o grupo. Quem já esteve em um relacionamento no qual não via futuro e como superou? Refiz a pergunta várias vezes, como nos orienta Paulo Freire. Se a pessoa não entendeu explique outra vez de um jeito diferente. Algumas participantes compartilharam seus conflitos passados e a forma como superaram os relacionamentos sem futuro para si e para os filhos. Terminamos a roda seguros de que todos vivemos incertezas e momentos difíceis, mas que somos capazes de superá-los quando falamos, refletimos, aprendemos com o outro e nos enchemos de esperança no grupo. São as nossas atitudes hoje que orientam o nosso futuro. É preciso saber onde se quer chegar para saber a vigem que devem os fazer e quem será nossa (o) companheira (o) de jornada.

sábado, 15 de janeiro de 2011

A catástrofe no Rio de Janeiro como tema escolhido numa roda

Nossa roda de Terapia está de volta, em 2011, a todo vapor. Algumas pessoas já me cobraram que eu não tenho postado sobre as rodas que faço. Explico: estávamos em férias. Mas vamos lá. Começamos o ano mal, com a tragédia no Rio de Janeiro. Algo que tem mobilizado até as pessoas menos sensíveis que eu conheço. Na roda de TCI desta semana o tema escolhido foi sobre este triste acontecimento em nosso país, "lindo por natureza"! Quando escolheram este tema eu fiquei com medo de ser um tema muito geral e não alcançar questões pessoais. A participante disse: "sofro ao ver estas pessoas morrendo e desabrigadas e eu não posso fazer nada por elas". Lancei o seguinte mote: "Quem já quis ajudar alguém e não pode? O que sentiu e como superou?" Várias pessoas se manifestaram. Uma contou-nos que o sogro estava na UTI e que ela gostaria de poder fazer algo por ele, mas que não pode. Disse que se sente impotente diante do sofrimento dele. Outro contou como foi difícil ver a mãe sofrendo até morrer e não poder fazer nada, mas que aprendeu a aceitar o que a vida tem a dar, mesmo que seja a morte. Por fim, não chegamos a um consenso, mas uma coisa é certa: a morte. Enquanto ela não chega vamos tentando fazer o nosso melhor na vida.

Ken Robinson: Escolas matam a criatividade? (parte 2/2)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Algumas reflexões sobre a papel do terapeuta comunitário ( por Nicole Hugon)

A Terapia Comunitária exige da parte do terapeuta comunitário:
  • Um bom domínio da técnica de animação do grupo de TC.
  • Um trabalho pessoal de conscientização e crescimento, sobretudo na percepção de suas próprias pérolas: descoberta de seus recursos e competências adquiridas na superação de suas dificuldades, lhe permitindo confiar na capacidade do outro quando na superação dos obstáculos e na busca de soluções.
  • Um engajamento na comunidade com a qual compartilha o mesmo objetivo de crescimento e melhor qualidade de vida.

Nessas três dimensões é fundamental que o terapeuta caminhe ao lado da comunidade ao invés de uma atitude de cima para baixo. A ética da TC, seu valor fundamental, reside, sem duvida, nas possibilidades da relação horizontal, rompendo com o esquema tradicional da função do cuidador ou expert, onde aquele que sabe deve assumir uma posição vertical sobre aquele que sofre. Para nos, profissionais do cuidado, assumir a horizontalidade exige um esforço consciente sobre si mesmo, sempre renovado, jamais vencido a priori, qualquer que seja nossa boa vontade. Se trata de uma revolução cultural penosa. Ela exige, portanto, contradizer nossa ética profissional quotidiana, que nos propicia a responsabilidade solitária de competência e eficácia. Nosso risco permanente é regredir a posição original sempre que nos sentirmos em dificuldade no seio do grupo, por uma razão ou por outra.

A TC como formadora de novos padrões vinculares (parte 2)



De acordo com Bolwby (1989) as experiências primárias com o cuidador (pais ou responsáveis) iniciam o que depois se generalizará nas expectativas sobre si mesmo, dos outros e do mundo em geral, implicações importantes na personalidade em desenvolvimento. A imagem interna adquirida é considerada a base para todos os relacionamentos íntimos futuros. A pessoa adquire, na infância, um padrão de apego que reproduz ao longo da vida, nos relacionamentos sociais e parentais.
Nos casos de famílias abusivas, a construção da representação mental infantil tende a se dar de forma rígida, mal adaptada, inapropriada. Nesses casos a confiança da criança de que as pessoas podem compreender umas às outras através de seus próprios sentimentos é destruída (Dalbem & Dell’aglio, 2005). O que pode inibir a capacidade de o adolescente de se envolver em relacionamentos de apego mais intenso.
Com o passar do tempo a teoria do apego tomou diversas direções. Aqui nos interessa destacar uma destas vertentes: estudos sobre a ocorrência de eventos ao longo do ciclo da vida que possibilitam a mudança do tipo de apego. A TCI é uma forma de oferecer aos adolescentes e crianças um novo modelo vincular que eles poderão expandir para suas vidas.
Na TCI cremos na capacidade de resiliência do ser humano, a capacidade que possuímos de superar e transformar nossas experiências sofridas. A TCI “é um espaço de promoção da resiliência, pois pela partilha de experiência de vida os indivíduos reforçam a auto-estima, fortalecem os vínculos interpessoais, bem como estimulam a autonomia”. (Barreto, 2005, p. 99/100).Por acreditar no poder da TCI na formação de vínculo nós, terapeutas comunitários, estamos sempre atentos às necessidades do grupo.

domingo, 26 de dezembro de 2010

A magia do natal na arte da reformulação do ser (Nélio Azevedo)

Deus sacrificou seu único filho para te salvar Com esse gesto produziu uma cor - o amar Seus ensinamentos criaram outras cores Para que te construa, também, com valores Dentre outras coisas, te fez livre e inteligente Daí em diante, deu as tintas para que cada um se pinte Não te impede que peça alguém para fazê-lo Mas não se responsabiliza se não resultar num modelo Como colocar em prática os objetivos dessa missão Se faltavam instrumentos para facilitar a ação? Visando à criatividade, como a textura pastel Ofereceu o pincel Para numa tela em branco te pintar Ou em outra precisando de se reformar Ele oportunizou a motivação Como produtora de emoção Quando Jesus menino foi pintado para cumprir sua missão Foi esperado com festa em conjunção de coração Por isso, nem precisa de inspiração Use esse modelo cristão Visando sarar as feridas da sua época infantil Que é o que incomoda em cada adulto, de pueril Neste caso é seu próprio nenê Que só espera isso de você Faça escolhas com a íris Das cores do arco-íris Não se esqueça da magia Nem economize na energia Comprometa-se com o novo Que te resgate do ovo Mude o que não podia Construa sua autonomia Adicione nesse infante os ritos Seja tolerante com os gritos Preencha espaços com correria Pra que ele só tenha alegria Investigue as cores da tristeza, Substitua tudo por beleza Identifique o tom da dor E cubra-o todo com amor Cuide dos olhos com atenção Selecione o canal da satisfação Substitua as gotas do amargoso Pelas do brilho gostoso O sacrifício de Jesus não foi inútil Ele não faria isso por alguém fútil Não poupe pinceladas de orgulho de ti, Pois há registros do sangue e do amor dele por ti! Não cuide só da emoção Ou do que for crítico Fortaleça com tinta o coração Combine cores que desenvolvam o corpo e enfatizem espírito Pincelando no corpo um templo, um ninho, Retribua todo esse imenso carinho Destacando a intensa cor da bondade Para que se harnonize com a cor da divindade Você, que está sendo produzido, se não estiver sendo atendido Desgrude da tela, use a paleta para combinar o que te faz sentido Crie um matiz do poder, que foi herdado Para valorizar o que foi por ti realizado Tenha coragem de acrescentar algo mais do que quiser Receba tua criança restaurada pela fantasia da chaminé Seja, também, o presente dela - barba branca, gorro, roupa, tudo vermelho Dançem uno com a sinfonia das estrelas, como com a tua imagem no espelho É preciso ousar com o que se faz Para se ter um Natal da cor da paz. É preciso muita coragem para fazê-lo, Não é apenas esperando merecê-lo. Então, instrumentalizado, construa neste natal Utilizando todo esse arsenal Objetivando a reformulação do serEssa belíssima obra – você!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Matéria sobre a TCI no Correio Braziliense (Clique aqui)

O Correio Braziliense fez uma matéria, de Márcia Neri, sobre a Terapia Comunitária (TC). Eles entrevistaram o Dr. Adalberto Barreto e visitaram dois grupos de TC em Brasília: dos Correios e do TST. Clicando no título desta postagem você tem acesso à matéria, com o depoimento de alguns participantes e trecho de um artigo meu.

A foto é do grupo que eu participo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A TC como formadora de novos padrões vinculares (parte 1)

Incluir socialmente um indivíduo ou uma classe social parece ser tarefa do Estado. Porém, acreditamos que nós como cidadãos podemos e devemos colaborar com o desenvolvimento psicoafetivo e social do nosso próximo. Os jovens deste grupo e de muitos outros espalhados pelo Brasil sentem falta de apoio social, estão expostos à violência e outros estressores, não têm muita perspectiva de futuro. Tudo isso porque a ausência da figura de apego por trocas de cuidadores, associadas a perdas e separações precoces geram um sentimento de desamparo e impotência. Ninguém escolhe a família, o bairro ou o país onde nascer nenhum ser humano escolhe ser um excluído, viver à margem da sociedade e não ter acesso à educação superior. A exclusão “ao mesmo tempo em que molda a subjetividade do indivíduo, caracterizando-o muitas vezes como um ser que não pode criar, mas que deve repetir, esvazia-o das condições que o possibilitariam transcender uma compreensão imediata e estática da realidade” (Costa, 2004). Na TCI descobrimos que o desamparo, através do abandono e da exclusão, pode ser transformado pela capacidade de resiliência do participante, que é revelada e desenvolvida no grupo. É possível transcender a moldura imposta à subjetividade, a partir do momento em que o indivíduo tem compreensão da sua condição social, tem oportunidade de refletir sobre si e conhecer novas possibilidades de interação social. De alguma forma, por mínima que seja, podemos fazer algumas escolhas na vida. Se o excluído tiver alguma oportunidade de escolha ele viverá de uma forma distinta da que lhe fora determinada no “berço”, no mínimo mais consciente. Uma ação terapêutica grupal, como a Terapia Comunitária pode ser uma via que possibilita a inclusão social. Sentir-se incluído, aceito e valorizado na família viabiliza a inserção em outros grupos da sociedade. Quando a família falha há a possibilidade de ser aceito na escola e se esta também se mostra ineficaz os “amigos”, através das gangues ou o uso de drogas, certamente, preencheram esta falta. Jovens que não estabeleceram uma quantidade razoável de vínculos seguros podem encontrar na TC a oportunidade de novos padrões de vínculos saudáveis.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Não desistir do outro que está doente

A roda de hoje mal terminou e já corri pra “blogar”. O Mismec-DF está visitando todas as rodas do DF e a nossa foi a primeira a receber dois terapeutas: Iris e Pedro. Foi uma alegria recebê-los. A idéia é realizar um recadastramento de todas as rodas e terapeutas atuantes. Se você tem uma roda de TC procure o Mismec-DF, se aproxime, o Mismec-DF quer estar mais próximo de você em 2011. Eu estou amando a idéia. Vamos ao tema desta TC, a penúltima roda do ano. Uma participante trouxe sua preocupação e angústia com um sobrinho que está ‘vivendo’ no mundo das drogas. Ela disse: me sinto muito fraca, incapaz de ajudá-lo, meu coração dói. Eles cresceram juntos, como irmãos e ela não sabe o que fazer para ajudá-lo. Lancei o seguinte mote: Quem já se sentiu angustiado querendo ajudar alguém e o que fez pra superar esta angústia? Houve várias respostas: eu esperei a pessoa pedir ajuda; eu orei a Deus; eu me mostrei disponível; eu fui ao encontro da pessoa; eu fiz a minha parte, orientei e ofereci ajuda de forma concreta; eu e minha família superamos as dificuldades com AMOR. Concluímos, com a restituição a pessoa angustiada, que quando ela pensa não ter mais força descobre uma brasa no coração que a desperta, a brasa se converte em labaredas de fogo, que a capacita a não desistir da pessoa que ama.