terça-feira, 19 de março de 2013

Mulher, mulher...sou forte, mas não chego aos seus pés!


Nossa roda estava tímida, poucas pessoas e nenhum tema surgia. Como uma das participantes havia dito que estava sobrecarregada eu propus discutirmos esta questão. A primeira pessoa a falar foi a Karla (nome fictício). Ela disse que é muito difícil pra ela morar na casa da mãe com duas filhas adolescentes, o filho mais velho mora com o pai (primeiro marido). Em suas palavras: “Eu estou sempre sorrindo, mas ninguém sabe o que eu vivo. Algumas noites eu fico acordada olhando minhas filhas dormirem e penso: Meu Deus, como vou fazer amanhã pra elas comerem?...Estar só é muito difícil...eu só posso contar comigo e com este salário aqui do trabalho” (salário mínimo). Esta jovem mãe é viúva do segundo marido, o pai das filhas, que não deixou pensão.
Após ouvirmos com muita atenção as dificuldades de Karla (especialmente o fato de que ela sofre muito quando acaba um relacionamento amoroso) perguntei ao grupo: quem já se sentiu só, desamparada e como superou? Umas três mulheres disseram já ter vivido algo semelhante e que hoje elas são as rainhas de seus lares: “Eu já passei maus pedaços com meus filhos...hoje eles estão grandes e me tratam como rainha”. Todas afirmaram que venceram sem muito apoio masculino: “O homem não dá conta de metade do que nós fazemos por um filho”.
No Brasil parte significativa dos lares tem a composição semelhante ao de Karla, a mãe é a chefe da família e a figura masculina inexiste. Mas fica o mito de que não daremos conta, de que não será possível educá-los, alimentá-los, corrigi-los, amá-los etc. Claro que o ideal seria os dois pais juntos neste processo de criação dos filhos. Todavia, a mulher pode educar seus filhos, mesmo estando sozinha. Outra participante ressaltou que não precisa ter um “traste de homem” só pra dizer que não está sozinha: “quero alguém pra me apoiar, não pra me dar mais trabalho”.
Ao final eu ressaltei que não adianta apenas ter esperança de que tudo vai passar, de que um dia o sofrimento será passado. É preciso agir, trabalhar, estudar, tentar outras possibilidades...é preciso fazer o futuro acontecer. No que diz respeito à falta de um companheiro...é preciso não se iludir. Como eu já escrevi em outro post: se estivermos pela metade nunca vamos encontrar a metade que nos falta. É preciso estar inteira para encontrar alguém inteiro.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Histórias de amores


Nem sempre nossas rodas de terapia comunitária trazem temas tristes e trágicos. A vida pode ser bela, mesmo com adversidades. Então, nosso tema foi amores. Freud afirma que toda mulher quer ser amada. Uma verdade parcial, pois todo ser humano quer ser amado. Amar faz bem à alma (psique) e ao corpo. Como lemos em Provérbios 15:13: O coração alegre embeleza o rosto, o coração triste deprime o espírito. É o amor quem alegra o coração.
Mas não existe um só tipo de amor, existem amores, e qualquer um deles é capaz de nos alegrar. O grego é mais rico em palavras pra expressar os amores. Há Eros, Ágape e Filos. Eros é o amor romântico, mas não necessariamente sexual. Filos é o amor entre amigos, irmãos, família. Ágape seria o amor maior, que transcende a matéria e as relações sociais. Um amor “sem” interesse, superior; amor ao próximo e a si mesmo. Penso que as possibilidades de amor são tantas que nenhuma língua seria capaz de comportá-las.
Nosso grupo de terapia é formado por pessoas que, de modo geral, têm uma vida bem difícil. Mas enquanto falávamos sobre amor os rostos castigados pelo sol pareciam iluminados. Um rapaz contou que está casado a treze anos com a mulher da sua vida. Emocionou-se ao contar que por ela deixou as drogas, que ela o tornou homem e pai. “Eu acho que nós vamos ficar velhinhos e juntos”. Achei tão corajoso de sua parte se expor desta forma.
Uma senhora contou que faz mais de uma década que não tem um companheiro. E completou: “as pessoas pensam que não tenho amor na minha vida, mas não é verdade, tenho minhas filhas”. Outra pegou o gancho e disse que está só, mas por pouco tempo: “gosto de amar, sentir um frio na barriga quando vejo o cara...é bom demais!”
Parece que amores não podem faltar em nossas vidas quer por uma pessoa, quer por várias, quer por um projeto, quer por um ideal. Amplie seus horizontes e acolha, com amor, algo ou alguém. Certamente seu rosto se iluminará.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A casa não tinha teto, não tinha nada... sem chão e sem pinico...puro desamparo!

Estamos de volta com nossas rodas de TC, em 2013. Todo ano, ao retomarmos falamos sobre nossas metas para o ano e ajudo o grupo a criar estratégias para alcançar seus objetivos. Desta vez foi diferente...
Soraya (nome fictício) participou pela primeira vez de uma roda de TC, está recém chegada na empresa em que trabalho. Logo que chegou estava sorridente e falante, porém, quando abrimos para a apresentação do tema ela desabou. Soraya morava com a filha mais velha, casada, e outra mais nova, deficiente (com sérias limitações físicas e cognitivas). A filha mais velha a expulsou de casa, chegando a agredi-la fisicamente; o ex-marido pediu a guarda da mais nova e sua mãe faleceu recentemente. Soraya...ficou na rua, sem lenço e sem documento.
A novata chorou muito ao contar sua história recente e disse sentir-se só e frágil. Nós a ouvimos por um longo tempo. Saber ouvir é uma habilidade que o terapeuta comunitário precisa desenvolver. Muitas vezes deixar a pessoa falar é mais importante que fazer perguntas.
Após ela desabafar, lançamos o seguinte mote: “Quem já se sentiu frágil? E o que fez para superar?” Várias pessoas expuseram suas fragilidades e falaram como venceram a seus momentos de fraqueza. Penso que ao sinalizarem, para o grupo, que é possível tornar-se forte após sentir-se quebrado, as pessoas que compartilharam duas dores deram à Soraya a oportunidade de acreditar que tudo passa, até o sofrimento. Ela pode ter se enchido de esperanças. Se as outras superaram...talvez eu também supere?!
Soraya está vivendo um momento de luto. Perdeu a filha mais velha, que preferiu ficar a sós com o marido e excluir a mãe de sua vida; perdeu a mais nova que mora com o pai e raramente pode vê-la: “não sei se estão cuidando dela direito”; perdeu a mãe; perdeu a casa em que vivia (está morando de favor com um parente: “não posso nem dormir na hora que eu quero”). Sem teto, sem parede, sem chão e sem pinico...puro desamparo!
Não sei se, efetivamente, a roda foi frutífera para esta mãe. É claro que nós a acolhemos e mostramos que ela não está só, nós a apoiamos. Mas de uma coisa eu sei, esta história foi útil para mim. Depois desta roda valorizo mais cada detalhe do que possuo.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Individuação: O que é um agasalho?


Este ano fui bem ausente no blog... No primeiro semestre, quando estava ocupadíssima, postei bastante, depois fiquei com mais tempo e quase não postei nada. Bem, quer que algo seja feito? Peça a uma pessoa ocupada!
As últimas rodas do ano, com os trabalhadores, giraram em torno de tomar as rédeas da nossa própria vida. Falamos de temas como o processo de individuação*. É muito comum nos incomodarmos com os outros. Gosto de dar o seguinte exemplo: perguntaram a uma criança o que era agasalho e ela disse: é o que a minha mãe veste em mim, quando ela está com frio.
É tão comum algumas pessoas dizerem às outras: você não está sentindo calor com este casaco? Ou, quer um casaco? Tá frio, né?! Esta é apenas uma ilustração rasa do que acontece quando não aprendemos a nos separar dos outros. Quando estamos misturados com nossa família, filha (o), esposa (o) ou qualquer pessoa que vemos e nos incomoda. O irmão faz uma má escolha de casamento e você sofre. A sobrinha está transando antes da idade, que você julga apropriada, o mundo se acaba. O colega de trabalho é muito relapso com suas tarefas, você critica (mesmo ele trabalhando em outra sessão).
O olhar demais para o outro pode ser também uma tentativa de evitar olhar para si mesmo. Em geral, só reconhecemos no outro o que conhecemos. Como não consigo olhar para meus defeitos eu os vejo no outro e isso me incomoda profundamente. Quando descubro que não tenho nada a ver com as escolhas do outro (se elas não me afetam diretamente, é claro), aprendo a respeitar o seu espaço, respeitar suas escolhas e passo a sofrer menos.
Apesar de parecer fácil ... leva anos para alcançarmos a individuação. São anos de análise ou terapia e ainda assim, algumas vezes vejo alguém na rua e penso: “como ela não sente frio com esta roupinha tão curta?” Se você está com frio, vista o seu casaco, não peça ao outro que faça o que você gostaria de fazer.
*Individuação é um conceito Jungiano, entenda melhor clicando aqui.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A liberdade do outro vai até onde começa a minha

Esta foi nossa última roda antes das minhas merecidas e esperadas férias! Éramos muitas nesta sexta, todas mulheres, e quase todas participaram. Na chegada conversávamos sobre nossos animais de estimação, nossa relação com eles e o luto ao perdê-los. Só após muitas partilhas sobre nossos bichinhos é que efetivamente iniciamos a nossa roda de terapia.
O tema da roda surgiu deste bate-papo inicial. Uma participante contou que ao viajar a vizinha pegou sua cachorra e sumiu com ela e seus filhotes. Disse ter se sentido invadida. Então propus o seguinte tema: Quem já invadiu o espaço do outro? E o que aprendeu com isso? (paralelamente trabalhamos o posto: sentir-se invadido).
Houve vários relatos, como a mãe que lia as cartas que o filho recebia da namorada, antes de ele ler, e da esposa que pegou o chip do celular do marido e descobriu que ele tinha uma amante. Mas uma outra história destacou-se, a de uma jovem que exigiu que o marido fornecesse a ela todas as senhas de e-mails e redes sociais, com a condição de que terminaria o casamento.
O marido fez o que a esposa pediu e ela não encontrou nada acerca da possível traição. Ela continua acessando as contas dele, com a "esperança" de flagrá-lo. Perguntamos como ela se sentiria se fosse o oposto. Ela tentou desconversar, mas reconheceu que não daria a senha, que não seria legal ter alguém "fuçando" a sua vida virtual. E disse mais: "faço isso porque sei que um dia vou perdê-lo" (sobre isso escreverei no próximo post).
Concluímos que se não gostamos de ser invadidos não devemos invadir, afinal: "A minha liberdade vai até onde começa a do outro" e vice-versa. É tão fácil falar, difícil é enxergar este limite e respeitá-lo. Entendo que a falta da individuação faz com que nos sintamos misturados aos outros e com este direito de querer saber tudo sobre o outro, especialmente se o amamos ou odiamos.

domingo, 21 de outubro de 2012

Quando o pai não é o herói...


Na roda anterior de Terapia Comunitária, uma participante apresentou sua história: a busca por sua mãe que a havia deixado com a mãe adotiva. Ela localizou a mãe, morta em outubro passado. Hoje ela traz a questão do seu filho que não possui o nome do pai no registro. Agora a escola a orienta a buscar o pai do garoto. Ela está desanimada, cansada e não quer fazer isso, porque não considera relevante.
No grupo ela pode ver como é importante o nome do pai no registro de uma pessoa. Vários participantes contaram como se sentiram crescendo sem o nome do pai, enquanto outras contaram como foi complicado provar ou convencer o pai de seus filhos a registrá-los e pagarem a pensão devida.
É comum na nossa cultura valorizarmos o papel da mãe em detrimento do pai. Muitas vezes são as próprias mães que desprezam o valor do pai diante do filho. Estamos em uma época em que, no meu entendimento, começamos a dar ao pai o lugar que ele merece em nossas vidas.
Estudos recentes têm buscado entender o papel do pai desde a gestação. Qual o lugar do pai na vida de um recém-nascido? Muitas vezes ele serve apenas para carregar a bolsa ou o carrinho do bebê. Mas isso não é verdade. O pai é muito importante na vida de uma pessoa.
Assim, esta jovem pode ver sua questão de outra forma. Pode entender que é importante para o seu filho saber quem é seu pai e ser reconhecido por este. Ainda que falte o essencial: o envolvimento afetivo entre pai e filho.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sobre o viver e o morrer (Sêneca)



Nos últimos dias tenho lido Sêneca, um filósofo contemporâneo de Jesus Cristo. Como outros estoicos, ele ensinava que as emoções destrutivas resultavam de erros de julgamento. Ele escreve sobre a duração da vida, a morte e a velocidade do tempo. Um tema constantemente trazido nas rodas de terapia que realizo é a questão da morte e como lidar, suportar, conviver e aceitá-la.
De acordo com este autor o que nos distingue um dos outros é apenas o intervalo entre o nascimento e a morte. Não cabe muita coisa na duração da vida, argumenta o pensador. Quando pensamos assim trazemos a morte presente à nossa consciência (destaco que a sua presença é constante, independentemente de a reconhecermos). Quando assim o fazemos não nos desanimamos para a vida, ao contrário: “nada do que me acontecer receberei com tristeza” diz o filósofo.

Qual vida tem mais valor? A daquele que vive pouco ou a do que vive muito? Para Sêneca o que nos diferencia uns dos outros é a sabedoria. Ora, sabedoria não é cultura, educação, formação; é aceitação da finitude, da vida e da morte. Fácil falar, difícil de viver!
Em outro momento Sêneca considera que “o que importa é quão bem tu vivas e não quão longamente, e muitas vezes o bem-viver está nisso, em não viver longamente”. Para este pensador viver bem é alimentar a alma, não o corpo. Será que nossa geração tem vivido bem? Ou será que só nos preocupamos em ter um corpo lindo, uma roupa de marca, uma tecnologia de ponta? Diga-me qual é o seu viver, antes que morramos...aceitar a morte me leva a viver a vida com mais sabor e intensidade!

sábado, 6 de outubro de 2012

Filha abandonada pela mãe é exemplo de resiliência

A nossa roda de ontem foi marcada pela falta, a saudade. Uma participante nos contou que após 23 anos resolveu procurar sua mãe biológica. Ela fora deixada, aos 3 anos, com a dona de um hotel em um garimpo do nosso país, a mãe disse que voltaria, mas nunca veio buscá-la.
Esta semana amigos encontraram sua mãe, que faleceu em outubro passado, aos 41 anos. A jovem se considera feliz por saber notícias, mas que lamenta não poder abraçar e beijar a tão desejada mãe. Perguntei quais sentimentos ela tinha em relação ao abandono. Pra surpresa de todos, ela relata não se sentir abandonada, considera que sua mãe a deixou porque queria protegê-la do padrasto que não gostava dela (ele chegou a queimá-la com cigarro). “Foi bom pra mim ter ficado com minha mãe adotiva, ela me amou muito e a outra também”.
A capacidade de resiliência desta moça nos deixou encantados. Quantas vezes nós enfatizamos o que faltou e não o que nos foi oferecido pela vida? Ser capaz de superar as faltas, agradecendo pelo que recebemos, é uma capacidade que todos temos, uns mais outros menos. A falta é constituinte do ser, é a partir da falta que nos tornamos quem somos, a falta é o espaço no qual nos constituímos. Entendo que com boa vontade e conscientização podemos, como esta participante, ver o que o vazio nos oportunizou, nos viabilizou outros crescimentos.
Ao final, fizemos uma rodada onde todos tivemos a oportunidade de verbalizar o que nos faltou. Sugiram temas com o pai sempre ausente e indiferente, o carinho da mãe que partiu deixando a filha ainda criança, o pai que faleceu, a irmã que sumiu no mundo há 30 anos, a família que ficou no nordeste, a bicicleta que nunca ganhou, a irmã que nasceu morta, o filho que não veio, o pai que não assumiu a paternidade...
Por fim, convidei a todos que refletissem sobre o que tais faltas fizeram com eles: “O fato de ter saudade/falta dessas pessoas, afetos e coisas fez o que de você?” E você leitor? Já olhou a sua falta com resiliência? O que faltou pode ter feito de você uma pessoa melhor? Certamente podemos ver nossa história de outro ponto de vista. Lembrando que “cada ponto de vista é a vista de um ponto” (Leonardo Boff, em A água e a galinha).

sábado, 29 de setembro de 2012

Antidepressivo: a pílula das flores

Antes de mais nada, é preciso dizer que não sou radicalmente contra antidepressivos. Há casos em que encaminho meus clientes/pacientes para um tratamento medicamentoso com psiquiatra. Os antidepressivos são essenciais para que algumas pessoas possam viver e sobreviver a sua imensa dor. Expresso aqui um ponto de vista, dos muitos que existem e nenhum é mais certo ou errado que outro.
Há pessoas que ao passar por algum sofrimento circunstancial, como o luto, recorrem às tais pílulas. O que acontece quando qualquer pessoa que está vivendo em um mundo psiquicamente limitado, onde sua existência circunscreve-se aos destroços e lixos emocionais, opta por tomar antidepressivos? No meu ponto de vista este mundinho começa esconder os lixos, as dores, as perdas...as saudades...e no lugar de tudo isso começam a surgir flores – só que isso não viabiliza ir além, conhecer novos os horizontes, novas paisagens.
As flores são artificiais e a pessoa permanece em um espaço psíquico limitado. Entendo que é preciso passar pela dor para superá-la. Li em algum lugar que no fundo do poço tem sempre uma cama elástica que nos lança para a luz. Se você não vivenciar, se não sofrer o que tem pra sofrer (com suporte terapêutico, familiar ou social) não poderá saltar e ver além do seu microuniverso destroçado.
Flores artificiais
É possível que além dos limites do que uma pessoa triste alcança hoje existam flores reais, com aroma, cor, textura, beleza e espinhos. É preciso sofrer para compreender a dor do outro, para se identificar, para amar verdadeira e intensamente. Para viver, é preciso sentir os destroços, superá-lo e um dia viver plenamente, mesmo que a plenitude seja curta...será real.
Cito o trecho de uma música de Sérgio Pimenta:
Só quem sofreu pode avaliar quem sofreu.
Pode se identificar, pode ter o mesmo sentir.
Só quem sofreu tem palavras de puro mel

Que transmitem todo o calor para quem precisa de amor

http://www.vagalume.com.br/sergio-pimenta/so-quem-sofreu.html#ixzz27uL72jeU

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O pai sofre pela morte de um filho, mesmo no ventre

Uma das críticas que recebi na defesa do mestrado, que foram poucas, foi sobre o fato de eu ter falado apenas sobre o sofrimento psíquico materno por natimorto. Tudo bem, o meu foco era na mulher, mas e o pai? Tenho me perguntado se não foi um daqueles atos inconscientes chamado preconceito. Claro que o pai sofre, mas eu não gastei nenhuma página pra falar sobre eles.
Então, esta semana fui apresentada a um poema de Drummond, O QUE VIVEU MEIA HORA. Escrito em memória de seu primeiro filho que morrera meia hora após nascer, com o cordão enrolado no pescoço. Transcrevo-o:
O QUE VIVEU MEIA HORA 
nascer para não viver
só para ocupar
estrito espaço numerado
ao sol-e-chuva
que meticulosamente vai delindo 
o número
enquanto o nome vai-se autocorroendo
na terra, nos arquivos,
na mente volúvel ou cansada,
até que um dia,
trilhões de milênios antes do Juízo Final
não reste em qualquer átomo
nada de uma hipótese de existência.
 SER
O FILHO que não fiz 
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.
Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apóia em meu ombro
seu ombro nenhum.
Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?
Lá onde eu jazia, 
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo 
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
faz-se por si mesmo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sozinha ... mas não pela metade!

Se você está lendo este texto, sugiro que leia primeiro a postagem anterior (primeira parte). A segunda metade da roda de terapia centrou-se no relato de Ana (nome fictício). Após a primeira participante (do relato anterior) narrar sua história com seu pai e as consequências que a falta do pai trouxe para sua vida, ela conta que, como sua mãe, teve três casamentos, e agora só, descobriu que é forte o suficiente para viver sozinha: “Aprendi que posso viver sem homem”.
Na sequencia, Ana identificou-se com a primeira fala e contou que sua família também fora abandonada pelo pai e que ela, ainda pequena, ajudava sua mãe a lavar e passar roupa pra fora, passava com ferro a brasa: “a tendinite que tenho hoje começou na infância...(choro). Meu marido saiu de casa pra morar com outra mulher, estou sozinha. Porém, eu aprendi com a minha mãe a valorizar o meu corpo... posso ser gorda e nem tão bonita, mas eu não achei minha perereca no lixo...o homem vai ter que ser muito bom pra ter este corpinho” (muitos risos e palmas).
O relato de Ana me faz pensar nas mulheres que não se aceitam sós, porque aprendem que seu valor está agregado ao de um companheiro. Estou lendo, pela segunda vez, o livro “Mulheres que correm com os lobos”. Este livro nos apresenta a mulher intuitiva que todas nós possuímos, umas ouvem a intuição, outras a ignoram. A mulher que ouve sua voz interior, como Ana, preserva-se. Muitas vezes entramos em relacionamentos com uma sensação (intuição) de que algo está errado, ou que não dará certo, mas insistimos. A mulher que ouve a sua voz interior sabe (consciente ou inconscientemente) que aquela pessoa é uma armadilha ou não.
Quantos desastres poderíamos evitar, para nós e nossa família, se soubéssemos duas coisas: discernir que caminho seguir e dizer NÃO para a escolha inviável no momento. Mas só podemos dizer NÃO se nos valorizarmos, se formos capazes de conviver com nós mesmas e com a solidão. 
Às vezes, estar só é dar uma oportunidade para ouvirmos nossa mulher interior, para sabermos o que queremos da vida e para onde queremos ir. Estar só pode ser uma oportunidade para nos organizarmos internamente. Estar só é apenas uma etapa, um meio, uma preparação para ficarmos inteira. Aí sim, poderemos nos relacionar com a famosa “outra metade”. Mas se eu estou inteira, que metade é essa? Fabio Jr. que me desculpe, mas metade da laranja... Duas metades diferentes nao podem ser uma unidade. O outro não é a metade que faltava, é apenas um outro que nos acrescenta (nada de subtração). Mulher, ouça sua voz interior e viva mais momentos felizes com sua melhor companhia: VOCÊ!
P.S.: Poderíamos ter cantado a música da Rita Lee: “Sei que eu sou bonita e gostosa/ E sei que você me olha e me quer/ Eu sou uma fera de pele macia/ Cuidado, garoto, eu sou perigosa/ Eu tenho veneno no doce da boca/ Eu tenho o demônio guardado no peito/ Eu tenho uma faca no brilho dos olhos ...”

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ok, eu sofri, e agora o que eu faço com tudo isso?

Sexta passada a Fátima, terapeuta, trouxe um mote fechado. Em comemoração ao dia dos pais ela perguntou: Qual a influencia de seu pai na sua vida, na sua formação? Neste dia todas as participantes eram mulheres. Uma delas iniciou: “eu só tive influencias negativas...eu tinha sete anos quando meu pai nos abandonou, fugiu com a vizinha. Ele deixou minha mãe grávida, com um filho de dois anos e eu. Logo que o bebê nasceu ela foi trabalhar e eu cuidava dos dois meninos, fazia comida e limpava a casa. Não tive infância!”
Em casos como este, em que a pessoa relata profunda mágoa é importante que o terapeuta tente tirar o foco do sofrimento, da dor, ajudar a pessoa a encontrar algo positivo para ressignificar sua história e se empoderar. Acredito que quando crianças somos vítimas de nossos pais, mas quando nos tornamos adultos podemos deixar de ser vítima e transformar a dor, tomar as rédeas de nossa vida. É como se eu dissesse: Ok, eu sofri, e agora o que eu vou fazer com tudo isso?


Então, perguntei o que ela aprendeu com o abandono. Ela disse que não aprendeu nada. Perguntei de outro modo: o que há de positivo em você que tem alguma relação com o fato de o seu pai ter faltado? Ela disse: não entendo a sua pergunta. Pela terceira vez eu perguntei, com outras palavras: em que a falta do seu pai contribuiu pra você ser a pessoa que você é hoje? Ela permaneceu calada. Outra pessoa falou: “você disse que é uma mulher forte, esta força tem alguma relação com a sua infância?” A jovem respondeu com ar de surpresa: sim, é verdade, eu sou forte e posso sustentar minhas três filhas sozinha (como minha mãe) porque eu tive que ser forte muito cedo.
Este é um exemplo de como descobrir a pérola em meio à dor, e também ilustra como funciona uma roda de TCI, de forma extremamente resumida. Destaco que esta mágoa e falta de perdão precisam ser trabalhadas, considero importante uma terapia individual. Na próxima postagem apresentarei a história que outra pessoa trouxe no momento da partilha, ela viveu algo parecido e superou o abandono.