sábado, 29 de setembro de 2012

Antidepressivo: a pílula das flores

Antes de mais nada, é preciso dizer que não sou radicalmente contra antidepressivos. Há casos em que encaminho meus clientes/pacientes para um tratamento medicamentoso com psiquiatra. Os antidepressivos são essenciais para que algumas pessoas possam viver e sobreviver a sua imensa dor. Expresso aqui um ponto de vista, dos muitos que existem e nenhum é mais certo ou errado que outro.
Há pessoas que ao passar por algum sofrimento circunstancial, como o luto, recorrem às tais pílulas. O que acontece quando qualquer pessoa que está vivendo em um mundo psiquicamente limitado, onde sua existência circunscreve-se aos destroços e lixos emocionais, opta por tomar antidepressivos? No meu ponto de vista este mundinho começa esconder os lixos, as dores, as perdas...as saudades...e no lugar de tudo isso começam a surgir flores – só que isso não viabiliza ir além, conhecer novos os horizontes, novas paisagens.
As flores são artificiais e a pessoa permanece em um espaço psíquico limitado. Entendo que é preciso passar pela dor para superá-la. Li em algum lugar que no fundo do poço tem sempre uma cama elástica que nos lança para a luz. Se você não vivenciar, se não sofrer o que tem pra sofrer (com suporte terapêutico, familiar ou social) não poderá saltar e ver além do seu microuniverso destroçado.
Flores artificiais
É possível que além dos limites do que uma pessoa triste alcança hoje existam flores reais, com aroma, cor, textura, beleza e espinhos. É preciso sofrer para compreender a dor do outro, para se identificar, para amar verdadeira e intensamente. Para viver, é preciso sentir os destroços, superá-lo e um dia viver plenamente, mesmo que a plenitude seja curta...será real.
Cito o trecho de uma música de Sérgio Pimenta:
Só quem sofreu pode avaliar quem sofreu.
Pode se identificar, pode ter o mesmo sentir.
Só quem sofreu tem palavras de puro mel

Que transmitem todo o calor para quem precisa de amor

http://www.vagalume.com.br/sergio-pimenta/so-quem-sofreu.html#ixzz27uL72jeU

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O pai sofre pela morte de um filho, mesmo no ventre

Uma das críticas que recebi na defesa do mestrado, que foram poucas, foi sobre o fato de eu ter falado apenas sobre o sofrimento psíquico materno por natimorto. Tudo bem, o meu foco era na mulher, mas e o pai? Tenho me perguntado se não foi um daqueles atos inconscientes chamado preconceito. Claro que o pai sofre, mas eu não gastei nenhuma página pra falar sobre eles.
Então, esta semana fui apresentada a um poema de Drummond, O QUE VIVEU MEIA HORA. Escrito em memória de seu primeiro filho que morrera meia hora após nascer, com o cordão enrolado no pescoço. Transcrevo-o:
O QUE VIVEU MEIA HORA 
nascer para não viver
só para ocupar
estrito espaço numerado
ao sol-e-chuva
que meticulosamente vai delindo 
o número
enquanto o nome vai-se autocorroendo
na terra, nos arquivos,
na mente volúvel ou cansada,
até que um dia,
trilhões de milênios antes do Juízo Final
não reste em qualquer átomo
nada de uma hipótese de existência.
 SER
O FILHO que não fiz 
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.
Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apóia em meu ombro
seu ombro nenhum.
Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?
Lá onde eu jazia, 
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo 
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
faz-se por si mesmo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sozinha ... mas não pela metade!

Se você está lendo este texto, sugiro que leia primeiro a postagem anterior (primeira parte). A segunda metade da roda de terapia centrou-se no relato de Ana (nome fictício). Após a primeira participante (do relato anterior) narrar sua história com seu pai e as consequências que a falta do pai trouxe para sua vida, ela conta que, como sua mãe, teve três casamentos, e agora só, descobriu que é forte o suficiente para viver sozinha: “Aprendi que posso viver sem homem”.
Na sequencia, Ana identificou-se com a primeira fala e contou que sua família também fora abandonada pelo pai e que ela, ainda pequena, ajudava sua mãe a lavar e passar roupa pra fora, passava com ferro a brasa: “a tendinite que tenho hoje começou na infância...(choro). Meu marido saiu de casa pra morar com outra mulher, estou sozinha. Porém, eu aprendi com a minha mãe a valorizar o meu corpo... posso ser gorda e nem tão bonita, mas eu não achei minha perereca no lixo...o homem vai ter que ser muito bom pra ter este corpinho” (muitos risos e palmas).
O relato de Ana me faz pensar nas mulheres que não se aceitam sós, porque aprendem que seu valor está agregado ao de um companheiro. Estou lendo, pela segunda vez, o livro “Mulheres que correm com os lobos”. Este livro nos apresenta a mulher intuitiva que todas nós possuímos, umas ouvem a intuição, outras a ignoram. A mulher que ouve sua voz interior, como Ana, preserva-se. Muitas vezes entramos em relacionamentos com uma sensação (intuição) de que algo está errado, ou que não dará certo, mas insistimos. A mulher que ouve a sua voz interior sabe (consciente ou inconscientemente) que aquela pessoa é uma armadilha ou não.
Quantos desastres poderíamos evitar, para nós e nossa família, se soubéssemos duas coisas: discernir que caminho seguir e dizer NÃO para a escolha inviável no momento. Mas só podemos dizer NÃO se nos valorizarmos, se formos capazes de conviver com nós mesmas e com a solidão. 
Às vezes, estar só é dar uma oportunidade para ouvirmos nossa mulher interior, para sabermos o que queremos da vida e para onde queremos ir. Estar só pode ser uma oportunidade para nos organizarmos internamente. Estar só é apenas uma etapa, um meio, uma preparação para ficarmos inteira. Aí sim, poderemos nos relacionar com a famosa “outra metade”. Mas se eu estou inteira, que metade é essa? Fabio Jr. que me desculpe, mas metade da laranja... Duas metades diferentes nao podem ser uma unidade. O outro não é a metade que faltava, é apenas um outro que nos acrescenta (nada de subtração). Mulher, ouça sua voz interior e viva mais momentos felizes com sua melhor companhia: VOCÊ!
P.S.: Poderíamos ter cantado a música da Rita Lee: “Sei que eu sou bonita e gostosa/ E sei que você me olha e me quer/ Eu sou uma fera de pele macia/ Cuidado, garoto, eu sou perigosa/ Eu tenho veneno no doce da boca/ Eu tenho o demônio guardado no peito/ Eu tenho uma faca no brilho dos olhos ...”

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ok, eu sofri, e agora o que eu faço com tudo isso?

Sexta passada a Fátima, terapeuta, trouxe um mote fechado. Em comemoração ao dia dos pais ela perguntou: Qual a influencia de seu pai na sua vida, na sua formação? Neste dia todas as participantes eram mulheres. Uma delas iniciou: “eu só tive influencias negativas...eu tinha sete anos quando meu pai nos abandonou, fugiu com a vizinha. Ele deixou minha mãe grávida, com um filho de dois anos e eu. Logo que o bebê nasceu ela foi trabalhar e eu cuidava dos dois meninos, fazia comida e limpava a casa. Não tive infância!”
Em casos como este, em que a pessoa relata profunda mágoa é importante que o terapeuta tente tirar o foco do sofrimento, da dor, ajudar a pessoa a encontrar algo positivo para ressignificar sua história e se empoderar. Acredito que quando crianças somos vítimas de nossos pais, mas quando nos tornamos adultos podemos deixar de ser vítima e transformar a dor, tomar as rédeas de nossa vida. É como se eu dissesse: Ok, eu sofri, e agora o que eu vou fazer com tudo isso?


Então, perguntei o que ela aprendeu com o abandono. Ela disse que não aprendeu nada. Perguntei de outro modo: o que há de positivo em você que tem alguma relação com o fato de o seu pai ter faltado? Ela disse: não entendo a sua pergunta. Pela terceira vez eu perguntei, com outras palavras: em que a falta do seu pai contribuiu pra você ser a pessoa que você é hoje? Ela permaneceu calada. Outra pessoa falou: “você disse que é uma mulher forte, esta força tem alguma relação com a sua infância?” A jovem respondeu com ar de surpresa: sim, é verdade, eu sou forte e posso sustentar minhas três filhas sozinha (como minha mãe) porque eu tive que ser forte muito cedo.
Este é um exemplo de como descobrir a pérola em meio à dor, e também ilustra como funciona uma roda de TCI, de forma extremamente resumida. Destaco que esta mágoa e falta de perdão precisam ser trabalhadas, considero importante uma terapia individual. Na próxima postagem apresentarei a história que outra pessoa trouxe no momento da partilha, ela viveu algo parecido e superou o abandono.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Transformando o inferno circunstancial em um ambiente saudável

Ao retornarmos com nossos encontros na roda de conversa neste semestre, realizamos uma dinâmica. Dei um pirulito para cada com a seguinte orientação: quero tirar uma foto com todos chupando pirulito, porém...seu cotovelo não pode dobrar, com o braço estendido. Foi um alvoroço...até que uma das participantes disse: eu posso por o pirulito na boca de outra pessoa? Matou-se a charada!
Em seguida contei a seguinte história: Um dia, Deus convidou um certo homem para conhecer o céu e o inferno. Foram primeiro ao inferno. Ao abrirem uma porta, o homem viu uma sala em cujo centro havia um caldeirão de substanciosa e cheirosa sopa e à sua volta estavam várias pessoas, famintas e com um olhar que mostrava desespero. Cada uma delas segurava uma colher. As colheres tinham um cabo muito comprido que lhes possibilitava alcançar a sopa dentro do caldeirão, mas não permitia que colocassem a sopa na própria boca. O sofrimento daquelas pessoas era enorme.
Em seguida, Deus levou o homem para conhecer o céu. Entraram em uma sala idêntica à primeira: havia um caldeirão igual, as pessoas em volta segurando uma colher com cabo comprido. A diferença é que todas as pessoas estavam alegres, saciadas em sua fome. Não havia fome nem sofrimento no olhar daquelas pessoas. Eu não compreendo - Disse o homem a Deus. Por que aqui no céu as pessoas estão felizes enquanto lá no inferno morrem de fome e aflição. As duas salas são iguais, com as pessoas usando em ambas as salas colheres de cabo comprido para pegar a sopa. Deus sorriu e respondeu: Aqui no céu as pessoas aprenderam a dar comida uns aos outros.
A partir desta história convidei cada participante a refletir sobre a sua vida. Como posso transformar o meu ambiente (casa, trabalho, relacionamentos, vida financeira) em um lugar bom para se viver. Falamos sobre tomarmos atitudes positivas em relação às diversas circunstâncias de nossa vida. Várias pessoas trouxeram depoimentos sobre como transformaram um inferno em céu, aqui na terra.
Ao final, todos abraçados em círculo, um a um colocava seu pé direito à frente (ao centro) e dizia algo como: Hoje, quando chegar em casa, eu vou elogiar meu filho e não vou reclamar de nada. Ou ainda: vou falar menos no meu ambiente de trabalho. Após cada um falar todos nós colocávamos um pé a frente, e juntos, dizíamos: NÓS TE APOIAMOS!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Dedicação materna na UTI neonatal

Nossa segunda roda de TC com as mães nutrizes na maternidade de um Hospital em Brasília teve como tema principal: sentir-se presa no hospital(as mães com os filhos internados vão raramente, ou nunca, para casa). Antes de falar sobre isso eu gostaria de destacar que temos experimentado algumas dificuldades em relação à metodologia da TC. Por exemplo: não podemos cantar ou fazer uma dinâmica com movimentos intensos, pois sempre há uma ou outra mãe que teve neném naquela semana e estamos em uma maternidade. As dinâmicas limitam-se a respiração e automassagem.
Então, iniciamos nos apresentado e compartilhando as coisas boas da vida. Em seguida, demos a cada uma a oportunidade de compartilhar o que às angustiava naquele dia. Nesta roda, aconteceu algo diferente, o tema foi se desdobrando, um tema puxou outro. Fugimos bastante da metodologia da TC, mas entendo que o importante é que estas mulheres possam desabafar, falar do seu sofrimento.


O primeiro tema foi sentir-se presa no hospital. Uma mãe contou que se sente como se a vida não seguisse seu curso, que não sabe o que se passa fora do hospital. Perguntei se mais alguém se sentia assim e quais as estratégias utilizava para superar este sentimento. Duas mães compartilharam deste sentimento, porém, as demais não se identificavam com este tema. Uma jovem disse que não se sentia presa: “Eu posso ir pra casa quando eu quiser, mas eu não vou sair de perto da minha filha, porque ir pra casa estar com as coisas dela (quarto, roupa) e sem ela em casa ... vai ser pior pra mim”.
Outra mãe disse: “O que me incomoda mesmo é não poder pegar na minha filha a hora que eu quiser. Quando ela chora muito eu fico nervosa e me criticam, dizem que eu não sou capaz de cuidar da neném ... isso me deixa mais nervosa ainda ... algumas vezes eu tenho vontade de sumir daqui com a minha filha ... mas eu sei que ela está bem cuidada”.
Assim, surgiu um novo tema: sentir-se desqualificada como mãe. Ora, eu não pude deixar de me lembrar de Winnicott, segundo este autor a pessoa mais preparada para cuidar do seu filho é a sua própria mãe. No texto Objetos transicionais e fenômenos transicionais, Winnicott (1971/1975) considera que a própria mãe é a pessoa mais habilitada para cuidar do bebê de forma suficientemente boa. Pois, apenas ela pode atingir a preocupação materna primária sem adoecer (Winnicott, 1956/1993). A capacidade que a mãe tem de despojar-se dos interesses pessoais e concentrar-se na gravidez e no bebê é o que a capacita saber exatamente com se sente o filho (Winnicott, 1967).
Com o filho na UTI, pequeno, frágil e com pouco contato com ele a mulher pode ter a capacidade de desenvolver a preocupação materna primária obstruída. Nosso trabalho se deu neste sentido de ajudá-las a perceber que cada uma é capaz de desenvolver uma sintonia, uma identificação com este filho fragilizado. 

domingo, 8 de julho de 2012

Dinâmica para festa junina

Todo ano nossa roda de TC no Tribunal realiza uma festa junina. Este ano pensamos em uma dinâmica que favorecesse o vínculo entre os trabalhadores. Considero que fortalecer vínculos de amizade no ambiente de trabalho é uma forma de prevenção da saúde mental do trabalhador. Mas como fazer algo que durasse para além dos momentos de roda de terapia?
Arthur com sua afilhada
Surgiu a ideia de madrinha de fogueira. Duas semanas antes lançamos a ideia que foi muito bem aceita pelo grupo. A partir daí cada participante convidou alguém para ser sua madrinha ou padrinho de fogueira. No dia da festa junina explicamos que o padrinho ou madrinha teria a missão de cuidar, zelar, apoiar este colega de trabalho por um ano. O afilhado, caso passe por algum problema, terá um amigo (padrinho) a quem recorrer.
Eu e Valdeni, minha afilhada de fogueira
A dinâmica  seguiu da seguinte forma, a primeira participante, justifica porque convidou alguém para ser seu padrinho, explicando as características desta pessoa que a levou a querer ser afilhada dela. Então, o afilhado, com um chapéu de palha na mão, vai até sua madrinha e a convida para dar uma volta na fogueira, colocando o chapéu na cabeça da madrinha:
                Você arrudia a fugueira mais eu?
             Sim, e dispois que nóis fizer isso eu serei sua madrinha até junho do ano que vem. (Em seguida davam uma volta na fogueira artificial que montamos no local da festa, com música e palmas).
Éramos umas 40 pessoas, nos comprometemos mutuamente a sermos mais atenciosos com nossos colegas. E continuamos as comemorações com os comes e bebes.

domingo, 1 de julho de 2012

Primeira roda de TC com mães e seus bebês na UTI

Semana passada conclui uma etapa da minha vida: o mestrado. Então, é hora de novos projetos. Pois bem, iniciei uma roda de Terapia Comunitária na maternidade de um hospital em Brasília. Unindo duas paixões a TC e a maternidade, com seus bebês. Estou contando com o grande apoio de Fátima, terapeuta comunitária, que aceitou este desafio. Inicialmente tivemos algumas dificuldades, burocracias, mas iniciamos. Contamos com o apoio da psicóloga desta maternidade, que é apaixonada pelo que faz.
O grupo é formado por mães nutrizes que estão com seus bebês internados. Iniciamos falando das coisas boas da vida e todas queriam celebrar a vida do filho: “o meu fez um mês ontem, teve até festa!”. O primeiro momento teve lágrimas de alegria por ter um filho vivo, especialmente de uma mãe que anteriormente perdeu o filho em condições bem semelhantes, morte neonatal. Também destacaram a importância do apoio que uma mãe dá pra outra ali no hospital, elas se confortam e se fortalecem entre si.
Foto apenas ilustrativa
No primeiro encontro o tema que surgiu com força total foi o medo. Várias delas (todas elas, eu acho) compartilham da angústia, do pavor que as assombra a cada minuto: a possibilidade de perder o filho, de ele vir a óbito a qualquer momento. Uma mãe contou sobre o seu medo: “eu sempre verifico se meu filho está respirando” outra disse: “quando me chamam no quarto eu já tremo de medo”. Viver com esta expectativa é angustiante. A morte pode bater na porta a qualquer hora. Há bebês com apenas um quilo e cem gramas.
Perguntei como elas lidavam com este medo. Cada uma apresentou sua estratégia para conviver com o medo. Uma fica pensando no futuro, em ela e a filha saindo do hospital; outra pede animo a Deus, que a fortalece; e há as que tentam pensar em coisas boas, além do hospital. Ao final, destacamos que o medo de perder um filho é um eterno sentimento materno, e que elas terão que conviver com este sentimento para sempre. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Cão protege bebê abandonado embaixo de uma ponte

Estava pronta pra escrever sobre a nossa roda de Terapia Comunitária de hoje quando, mais uma vez, me deparei com uma notícia sobre outro bebê abandonado. Como não escrever sobre isso se tenho, nos últimos três anos, pensado e estudado sobre a maternidade? Bem, a nova história aconteceu em Gana, o bebê foi encontrado embaixo de uma ponte, aquecido por um cachorro. Estou até vendo os comentários:  “o animal foi mais humano que a mãe”. Certamente críticas como estas surgiram.
Eu convido você a ver este episódio de um novo ponto de vista. A gestação, o parto e as horas ou dias que o sucedem são períodos que podem desencadear fortes transformações e crises na mente/psiquismo de uma mulher: psicoses gestacionais ou puerperais (no pós-parto). A relação de uma mulher com a maternidade está diretamente relacionada com a criança que ela foi e com a mãe que ela teve. A relação da gestante com sua mãe e a forma como esta a maternou, cuidou dela, exerce forte influencia no modo como a gestante irá se relacionar com a possibilidade da maternidade. Nós mulheres somos fortemente influenciadas pela relação que tivemos com nossas mães desde o útero.
Foto: Agência de Notícias de Gana
Se uma pessoa tem uma parada cardíaca após um período de luto ou stress intenso ninguém a recriminará. Cada um tem uma estrutura física e psíquica, assim como história de vida distinta. A doença mental pode desencadear-se em pessoas em contextos específicos. O que para uma pessoa é suportável para outra é extremamente sofrido, insuportável. Penso que esta mãe que deixou o seu filho numa fazenda, no mato, é uma mulher que está sofrendo profundamente, o sofrimento psíquico é uma doença e como uma doença física não é possível  controlá-la. Esta mãe pode ter ouvido vozes, tido visões que a assustaram...ou simplesmente não suportou a presença do bebê que trouxe lembranças de uma infância de rejeições e abandonos.
Ela não é apenas vítima, deve ser, de alguma forma trazida à consciência de seus atos. Mas, insisto que não julguemos antes de conhecermos a história desta mulher. Não vou ser simplória e dizer que poderia ter sido comigo, ou com você. Não, eu não tenho esta estrutura psíquica, talvez você também não tenha. Porém, há muitas mulheres que estão sujeitas a esta fragilidade psíquica na gestação e no parto. Vamos respeitar os que sofrem na alma/psiquê? 
Pode não ser nada disso. Quem sabe outra pessoa pegou o bebê da mãe e o abandonou...Cada cabeça um mundo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O STF não criou uma terceira exceção ao aborto

O Brasil é um país fortemente influenciado por valores cristãos. Nota-se isto no papel central que a maternidade ocupa na sociedade e no fato de o aborto provocado, um problema de saúde pública, ainda causar tanta comoção popular. Quero aqui, apenas discutir a questão do anencéfalo no contexto da sociedade brasileira.No Código Penal Brasileiro (DECRETO-LEI Nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940) há duas exceções para realização de aborto: quando a gravidez oferece risco de vida para a mãe ou quando o feto em gestação é resultado de estupro, mesmo sendo o feto viável, potencialmente uma vida saudável. Porém, mesmo quando o feto não tem esperança de sobrevida após o nascimento, como o anencéfalo, a lei não permite a realização de aborto. Para exemplificar sobre a postura da sociedade em relação ao aborto, lembro a recente polêmica nacional em torno da “antecipação do parto” de feto com anencefalia (má formação rara, caracterizada pela ausência parcial do encéfalo da calota craniana, nas primeiras semanas da formação embrionária). Em abril deste ano o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que não caracteriza crime de aborto tipificado no Código Penal a mulher que decide pela “antecipação do parto” em caso de gravidez de feto anencéfalo. O STF não legislou acerca do aborto, legislar é competência do Congresso Nacional, não criou uma terceira exceção para o aborto. A Corte atentou não para o início da vida, mas para sua potencialidade. No caso de fetos com anencefalia, sabe-se que não há, potencialmente, possibilidade de vida após o nascimento. Sob esse ângulo, a curetagem de um feto anencéfalo deixa de ser um aborto, no sentido jurídico da expressão. Se não há possibilidade de concretização da vida, não há crime contra a vida, portanto, não é aborto.Independente da expressão, antecipação do parto ou aborto, a decisão causou grande comoção popular. Religiosos ou não se manifestaram a favor da vida, não levando em conta o sofrimento psíquico da mulher que carrega um filho potencialmente morto no ventre, semelhante ao natimorto. Este fato ilustra que a maternidade ainda é considerada um dom. Tendo a mulher que se submeter a qualquer sacrifício em função de um filho. O que está de acordo com a afirmação de Badinter (1985) de que a maternidade é influenciada e sacralizada pela cultura cristã ocidental. 

sábado, 19 de maio de 2012

Dinâmica de autoconhecimento

Na tentativa de elevar o nível de autoconhecimento de cada participante da nossa roda de TC, propus uma dinâmica e a adaptei. Não realizamos uma TC. Pedi que cada um pensasse em um animal e apenas dissesse o nome do animal (um breve aquecimento). Em seguida, falei um pouco sobre a capacidade que temos de nos identificarmos com pessoas e coisas, e pedi para cada um escolher o animal com o qual se identifica.
No segundo momento nos dividimos em trios e compartilhamos uns com os outros as qualidades de algum animal que cada um identifica em si. Uma jovem disse que é uma onça, é sorrateira e está sempre pronta para defender seus filhos. Ainda em pequenos grupos cada um escolheu uma característica sua que gostaria de mudar (perceba que eu não perguntei o que a pessoa tem de ruim ou negativo). Alguém disse que gostaria de ser mais flexível como o bambu (sei que não é um animal), menos rígido; outro, mais criativo como o macaco.
Ao falar de si a pessoa começa a conhecer o que traz por baixo da máscara
O último momento foi na grande roda. Uma pessoa começou contando que se sente ativo como um coelho, e narrou alguns episódios de sua vida. Na sequência perguntei o que ele gostaria de mudar, ele disse que queria ser mais calmo. Então, eu perguntei ao grupo quem se identificava com ele e porque. E assim quase todos puderam falar um pouco de si. Foi interessante notar que conforme eu ia perguntando a pessoa ia tendo dificuldade em responder questões sobre ela mesma. Não vou entrar em detalhes, mas com umas três pessoas eu “peguei pesado” apontei as defesas e contradições no discurso.
Foi interessante notar que pessoas que nunca falam no grande grupo quando falam de si no pequeno grupo têm mais disponibilidade para falar na roda. Um jovem, que nunca fala na roda, falou com desenvoltura e eu tive que interrompê-lo depois de ele falar bastante. Penso que o segredo desta dinâmica está em o terapeuta fazer as perguntas certas, ajudando as pessoas a se identificarem umas com as outras, conhecendo-se melhor.
DICAS: Peça que a pessoa exemplifique o traço com o qual identificou –se com o animal. A partir daí aprofunde, se necessário. Em seguida pergunte quem se identifica com ela e o que ela sente ao ouvir o colega falar sobre algo que também é dela. Às vezes é mais fácil ouvir o outro que a nós mesmos. Cada roda toma um caminho diferente espero que a sua seja um sucesso.

domingo, 29 de abril de 2012

Correndo atrás do vento...

As duas últimas rodas, das quais participei tiveram temas bem semelhantes. A primeira aconteceu em uma faculdade de Brasília, com alunos do 9º ano do curso de psicologia, a outra no nosso grupo regular. Os temas se referem ao fato de não conseguir fazer tudo que deve ser feito e ainda assumir mais compromissos. Uma das participantes disse priorizar os outros em detrimento de si mesma.
A vida contemporânea nos leva a correr atrás de nossos sonhos. Porém, os nossos sonhos são realmente nossos? Em Brasília, e muitos outros lugares, estudamos e trabalhamos excessivamente, correndo atrás dos sonhos que aprendemos que deveríamos sonhar. Por que eu tenho que sonhar em ser analista do Senado? Por que eu tenho que trabalhar tanto e descansar tão pouco? Por que eu não posso ficar satisfeita com o que eu tenho? Onde tudo isso vai me levar?

Não quero ser hipócrita, ganhar mais é bom! Mas às vezes mais pode ser menos. Mais trabalho, menos lazer. Mais estudo, menos deslumbramento com o simples. Mais dinheiro, menos tempo pra desfrutá-lo.  Mais responsabilidade, menos tranquilidade. Passei tanto tempo sonhando os sonhos que me disseram que eu deveria sonhar que me esqueci de sonhar os que eu queria sonhar. Quais são mesmo os meus sonhos? Há dias que sinto que estou correndo atrás do vento.
Quero trabalhar com se estivesse brincando. Quero reaprender como me encantar com o simples. Quero desfrutar mais do que meu dinheiro pode me proporcionar. Quero cumprir meus compromissos sem me sentir esmagada por eles. Quero ter tempo pra ver minhas amigas que não vejo a um tempão (saudades). Tire a correria da minha frente que eu quero passar com os meus sonhos (e que sejam coloridos, cheiros, saborosos, intensos, novos, estimulantes...).

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dia da Terra

Todos os anos, a 22 de abril celebra-se o Dia Mundial da Terra.  A data foi criada em 1970. Desde então, milhões de cidadãos em todo o mundo manifestam o seu compromisso na preservação do ambiente e da sustentabilidade da Terra.

Ou mudamos ou morremos

Hoje vivemos uma crise dos fundamentos de nossa convivência pessoal, nacional e mundial. Se olharmos a Terra como um todo, percebemos que quase nada funciona a contento. A Terra está doente e muito doente. E como somos, enquanto humanos também Terra (homem vem de humus=terra fértil) nos sentimos todos, de certa forma, doentes. A percepção que temos é de que não podemos continuar nesse caminho, pois nos levará a um abismo. Fomos tão insensatos nas últimas gerações que construímos o princípio de autodestruição...
Aqui se encontra a saída para um novo sonho civilizatório e para um futuro para as nossas sociedades: fazermos desta lei da natureza, conscientemente, um projeto pessoal e coletivo, sermos seres cooperativos. Ao invés de troca competitiva onde só um ganha, devemos fortalecer a troca complementar e cooperativa, onde todos ganham...sem haver perdedores.
Leonardo Boff

domingo, 25 de março de 2012

Uma pedra no caminho

A roda de ontem apresentou-se com o tema mais difícil que já vivenciei em uma TC. Éramos três terapeutas na condução, é bom sermos três porque um ajuda o outro. Após a dinâmica de aquecimento abrimos para o grupo expressar os problemas. Esta etapa foi feita com a seguinte pergunta? Qual a pedra está no seu caminho? Na semana anterior houve uma dinâmica com uma pedra em que as pessoas puderam falar, segurando a pedra, o que obstruía seu caminho.
O tema escolhido foi o de Sarah, nome fictício, ela tem uma filha adotiva, usuária de drogas ilícitas (crack) que tem um bebê de seis meses e já está grávida de três meses. Acontece que a jovem de apenas 15 anos ganha as ruas e permanece dias fora de casa, o pior é que ela leva a filhinha. Na última vez que voltou pra casa a bebê estava com febre e sem alimento por mais de 12 horas.
Enquanto eu ouvia sua história um misto de revolta, ódio e amor tomaram conta de mim, por dentro eu chorava desesperadamente. Penso que com um tema desta gravidade não podemos, de imediato, pensar em uma terapia mais profunda, há questões de sobrevivência em jogo que devem ser priorizadas. Assim o nosso mote não foi sobre sentimentos diante de um problema como este, mas de como podemos ajudar esta mãe a ajudar sua filha. Outra participante contou que buscou ajuda para o marido alcoólatra e que após muita luta a família está livre desta doença.
A mãe está meio desorientada, sentindo-se só e impotente diante do problema, negando a doença da filha. Focamos em a mãe reconhecer que a filha está doente e na necessidade de se fazer algo mais efetivo. Destacamos que ela não estava mais só e que nós a apoiaríamos. Na conotação positiva não falamos de filha ou neta. Falamos do seu grande coração, de sua força e determinação. Reforçamos que algumas vezes na vida não temos a opção de pegar ou largar, há momentos que é pegar ou pegar.
Assim como esta mãe não tem outra opção, nós terapeutas também não temos. Ao nos depararmos com um problema como este a nossa postura deve ser de pegar, de envolver-se. Se nós estendemos a mão não podemos mais retirá-la. Assim, ao término da roda discamos no 100 e fizemos a denúncia, alguém irá a casa de Sarah tentar ajudar a jovem e nós acompanharemos tudo de perto. A avó, com a guarda da neta, não permitirá que a filha leve a bebê pra rua. Uma participante promoveu uma arrecadação para doarmos fraldas, leite e roupa.
Neste caso há, literalmente, uma pedra no caminho: o crack. Vamos tirar esta pedra do caminho?

domingo, 11 de março de 2012

Crises que preparam a mulher para tornar-se mãe

O atendimento às grávidas no HUB, desta semana, revelou vários aspectos psíquicos característicos da gestação. Dandara (nome fictício), uma jovem de 21 anos, primípara, com encaminhamento psiquiátrico para a clínica psicológica em função de um quadro depressivo gestacional, com choros e acessos de raiva. Ela brigou com o marido e voltou para a casa da mãe, com quem nunca teve um bom relacionamento, exceto agora. No início da gravidez procurou o pai que não via desde que era criança, os dois se reaproximaram. Em meio a tantos problemas ela diz que a gravidez tem sido um momento de muita tranquilidade em sua vida. “a única pessoa que me importa é meu filho...meu relacionamento com ele será bem diferente do de minha mãe comigo”.
Com tantas emoções seria possível que este período seja tão tranquilo? Sim, é possível que os dois afetos coexistam. A ambivalência, presença simultânea de dois sentimentos opostos, é uma característica do período gestacional. Brigava com a mãe, agora conseguem conversar, não falava com o pai, se reaproximaram, por outro lado afasta-se do marido. Neste tempo a mulher está se preparando para ser mãe, como sua mãe.  
Apesar de Dandara dizer que fará tudo diferente percebi que ela terá o filho com a mesma idade que a mãe a teve, separa-se do marido como a mãe o fez, quando ela nasceu, trabalha dez horas por dia e vai continuar trabalhando, como sua mãe que era ausente ela poderá ser. É claro que ela fará diferente de sua mãe, mas fortemente influenciada por esta.
A gestação é também um momento de regressões na vida de uma mulher, de reatar laços com os genitores, como esta moça o faz, reconstrói os laços com os pais. Tudo isso porque nesta época a mulher regride psiquicamente à criança que ela fora, ao bebê que precisou de cuidados. Este período de crise é parte do processo de preparação para tornar-se psiquicamente mãe, lembrar-se do bebê que ela fora e identificar-se com sua mãe a ajudará a entender o seu bebê e adaptar-se às necessidades dele, como diria Winnicott.
Para saber mais: Winnicott (1956). Preocupação materna primária. In Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, p. 399-405.

domingo, 4 de março de 2012

Gravidez e relações arcaicas

Estou em férias do trabalho (do oficial), então resolvi retomar o trabalho com o grupo de grávidas no Hospital Universitário de Brasília (HUB). Hoje 7 e 30 da manhã estávamos chegando (eu e Valéria) à sala de atendimento para gestantes de alto-risco. Oferecemos nossa escuta e algumas grávidas vieram até nós para compartilhar conosco suas angústias, medos, fantasmas, ambivalências e, é claro, alegrias e esperanças. Destaco que não realizamos uma terapia comunitária.
Compartilho apenas um caso. Ana (nome fictício) está grávida de 5 meses de uma menina, ela é solteira, que teve um primeiro filho que veio a óbito aos 2 anos de idade por problemas respiratórios. Esse filho rejeitou o peito, cheio de leite, aos dois meses de idade. Parece que faltou algo na relação desta mãe com este filho. Disse ela: “Ele perdia peso facilmente e estava sempre doente”. Para Winnicott uma alimentação bem sucedida e o desmame retratam o bebê que experimentou um sentimento de onipotência no decorrer da fase de dependência absoluta da mãe, quando ela era capaz de adaptar-se às suas necessidades (Preocupação materna primária, Winnicott, 1956). Artigo sobre o tema.
Hipertensão gestacional algo comum
Chamou-me a atenção o fato de esta mulher dizer: “tem que nascer logo, na barriga dá muito trabalho”. Parece que a humanidade inteira pensa diferente dela. No desenvolver de sua fala descobrimos que ela possui pressão alta (hipertensão gestacional) teve que excluir vários alimentos e atualmente dorme muito mal, devido a um problema na coluna.  Sua gestação não é nada confortável. Ao investigarmos sobre a gestação de sua mãe, Ana nos conta que ela nasceu de sete meses e ficou na incubadora por dois meses. A mãe foi para casa e ela ficou quase dois meses sozinha no hospital.
Parece que faltou algo na relação (primitiva) de Ana com sua mãe. Algo nas relações arcaicas permanece quebrado. Como diria Melanie Klein: Haverá sempre a tentativa de reconstruir o objeto interno danificado. O que aconteceria em alguns casos é que esta falha não permitiria uma livre aceitação da maternidade, durante e após a gestação. Na tentativa de reconstruir o que foi danificado a mulher revive, desde a gestação, seus traumas inconscientes, marcas deixadas no bebê que ela fora, antes do desenvolvimento da linguagem. O desejo de restaurar as relações que foram danificadas com o outro, a começar pela mãe, promoveria o reviver de traumas arcaicos. A ideia de M. Klein é bastante complexa, não é possível explicá-la em um parágrafo.
Para saber mais: Amor, culpa e reparação Obras completas de Melanie Klein, v. 1. Imago, 1991.
A psicanálise de crianças - Obras completas de Melanie Klein, v. 2. Imago, 1997. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Dinâmica da sensibilidade


Em 2012 nossa roda terá um perfil para além da Terapia Comunitária, pretendo intercalar algumas rodas de TC com dinâmicas e outras atividades. Uma semana atrás fizemos uma dinâmica bem interessante. A Cristina Servo, psicóloga e terapeuta em formação, propôs a dinâmica da “Sensibilidade”. Que tem o objetivo de melhorar a sensibilidade, concentração e socialização do grupo.
Faça dois círculos com números iguais de participantes, um dentro e outro fora. O grupo de     dentro vira para fora e o de fora vira para dentro. As pessoas do círculo interno fecham os olhos, as de fora mudam de lugar, caminham, e ao sinal da coordenadora cada um se posiciona em frente a um colega que está de olhos fechados.
Todos devem dar as mãos para a pessoa da frente, que irá senti-las, tocá-las bem, estudá-las. O círculo externo vai caminhando no sentido horário e parar em frente a outro colega (se quiser pode mudar a ordem em que as pessoas estão). Ainda com os olhos fechados, proibido abri-los, vão tocando de mão em mão para descobrir quem lhe deu a mão no início.  Quem encontrar as mãos corretas deve dizer: esta! Se for verdade, a dupla sai e se não for continua tentando.
Após todos se encontrarem o grupo que ficou de fora pediu pra ficar com os olhos fechados, com outras duplas, claro! E assim fizemos, outra rodada da dinâmica.
Depois nos sentamos e refletimos sobre como cada um percebeu o outro. Como você define o seu colega pelas mãos? Fulano tem uma mão quente, gostosa. Ou, a mão e pequena, meiga. Mão forte de trabalhador.

Surgiu uma discussão inesperada, sobre sentir-se enganado pelo outro. Alguns retiraram anéis, alianças, pulseiras ou relógios para dificultar a identificação. O que foi duramente criticado pelos colegas. Meu colega me enganou, eu procurei o anel e não achei, não achei justo. A colega retrucou: eu tirei o anel por que ele não queria conhecer a minha mão, ele estava ligado nas aparências, o anel não sou eu. Então perguntamos pra esta pessoa como ela gostaria de ser vista. Depois abrimos para uma discussão sobre como eu me mostro e como eu gostaria de ser visto (percebido) pelo outro.
Outro tema foi sobre a vontade de abrir os olhos, de burlar as regras, que nós ampliamos para uma questão ética. Será que eu sou honesta quando ninguém está me vendo? Abrir os olhos também é uma forma de enganar o outro e a mim? 
As possibilidades são muitas para discutir, confie no seu grupo ele trará muita coisa interessante. 
Depois compartilhe aqui como foi a sua experiência. Sucesso!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Dinâmica para a primeira roda de TCI do ano

Retomamos hoje com a nossa primeira roda de TCI de 2012. Após compartilharmos sobre nossas festas de fim de ano, fizemos algo diferente de uma roda de TCI. Quem faz roda de TCI com tempo em aberto pode usar a dinâmica pra aquecer e abrir com um mote estabelecido. Como temos apenas uma hora para os nossos encontros, realizamos apenas a dinâmica.
O objetivo desta atividade logo na primeira roda do ano é estimular os participantes a sonhar com o futuro, estabelecer metas e criar estratégias para alcançá-las ao longo deste ano. Iniciamos com um rolo de barbantes na mão. Ana Cláudia (uma psicóloga que também atua no grupo) conduziu a dinâmica, ela orientou o grupo a estabelecer até três metas e pensar ou explicitar as estratégias que usará para alcançar tais objetivos.
Não vale objetivos para os outros como: quero que meu marido consiga um emprego. Orientávamos a pessoa a expressar seu objetivo de outra forma: vou procurar emprego pro meu marido e ajudá-lo a se qualificar melhor para o  mercado de trabalho. Ou se quer que o filho pare de beber a pessoa pode se propor a não brigar mais com o filho e convidá-lo para participar de rodas de TC ou do AA.
Então a Ana Cláudia disse os seus propósitos para 2012 e o que fará para atingi-los, segurando a ponta do barbante, ela lançou o rolo para outra pessoa. Esta disse o seu nome, seus sonhos e lançou o barbante para  outro, segurando na sua ponta. Enquanto isso, eu registrava tudo e perguntava: o que você fará para conseguir emagrecer? Ou o que você pretende estudar? Onde? Já se matriculou? Quando você pretende se matricular? Ao perguntar (datas, locais e como a pessoa fará tudo que quer) pretendo tirar a pessoa da generalização e aproximá-la de seu alvo. E assim seguimos, até que todos na roda pudessem falar.
Esta foto não é do nosso grupo, retirei da internet.
Ao final desta parte observamos a teia de barbante que nos ligava uns aos outros e o grupo pode compartilhar o que isso significava. Uns disseram que percebiam que uns dependem dos outros, que não podemos realizar os sonhos sozinhos; outros que aquilo parecia uma bagunça como sua vida, mas que em 2012 poderia sair deste rolo e se organizar e que “Deus escreve certos por linhas tortas”.
Após alguns momentos de reflexão a última pessoa que estava com o rolo do barbante o joga para a penúltima pessoa dando um feedback em relação ao que o colega havia dito. Este retorno funcionou como uma conotação positiva. Uns cantaram uma música para a pessoa anterior, outros desejaram sucesso, outros ainda visualizaram o fim do ano, como por exemplo: estou vendo você, no fim deste ano, com o seu diploma na mão. Após nos desenrolarmos nos abraçamos, em roda e fizemos um grito coletivo: NÓS TE APOIAMOS!
Desejo a todos os leitores deste blog um ano repleto de realizações e que novos sonhos sejam sonhados sempre! 

domingo, 11 de dezembro de 2011

Equilíbrio na educação dos filhos

Nos últimos meses tenho lido muito Winnicott, um psicanalista inglês que os estuda os bebês e suas mães. Com o conceito de mãe suficientemente boa ele teoriza sobre uma mãe que é capaz de adaptar-se às necessidades do seu bebê. Conforme ele vai adquirindo alguma autonomia a mãe vai se adaptando e dando espaço para que o bebê desenvolva suas potencialidades.
Numa linguagem mais comum eu posso dizer que a mãe suficientemente boa é aquela que confia nas competências de seu filho. Ela diz: hoje eu não posso sair porque ele sentirá minha falta; Dias depois ela dirá: já posso ir para o trabalho porque ele vai suportar a minha ausência. Agora, eu vou ampliar esta relação para além do bebê. Suponhamos um adolescente, com uma razoável autonomia. Se Winnicott estiver certo, na proporção em que o filho conquista mais autonomia nós, mães e pais, deveríamos nos adaptar, cada vez mais a esta autonomia. Ou seja, teríamos que sair de cena. O palco agora é deles e nós ficamos nos bastidores ou no nosso palco particular.
Estou segura de que alcançar tal equilíbrio não é uma tarefa fácil. Mas se formos pais que educaram bem, poderemos confiar na formação que demos a eles. Bons pais são aqueles que deixam de ser necessários aos filhos em algum momento da vida. Se continuarmos em cima, no pé, brigando pra sermos indispensáveis vamos ser inconvenientes e os afastaremos de nós. Na medida em que aumenta a independência diminui a dependência, mas sempre seremos úteis, seremos referência, aconchego, colo disponível para quando eles precisarem.
Um dia eu quero ser apenas referência para meus filhos e netos, sem obrigações, sem dar brocas, castigos, sermões,deveres de casa e preocupações com seus futuros. Eu tenho uma profunda esperança de que isso irá acontecer, sabe por quê? Porque eu os educo, eu os capacito, preparo a bagagem deles para a viagem da vida. No início dá muito trabalho, mas com o tempo eles estarão cada vez mais forte, mais seguros, e precisarão menos de mim. Chegará o dia em que eles é quem serão necessários para mim. Quando esse dia chegar eu não quero implorar por um favor, eu espero que eles sejam maduros o suficiente para se adaptarem a inversão de necessidades. Não por obrigação moral, mas por amor, respeito e gratidão! É o ciclo da vida, é o novo pedido passagem!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Dicas de viagem

Maslow, psicólogo humanista teorizou sobre a psicologia da autoatualização. Autoatualizar-se é desenvolver suas potencialidades, é “o uso e exploração plenos de talentos, capacidades, potencialidades etc.” (Maslow, 1970, p. 150). Para este autor as pessoas devem fazer aquilo que lhes dá prazer. Pensando nisso e observando as pessoas ele sistematizou algumas caracteristicas das pessoas autoatualizadas. Resumo a seguir o que você pode fazer para se autoatualizar em sua viagem pela existência:
  1. Esteja atento ao que acontece dentro de você e ao seu redor. Ou seja, viva o presente de forma consciente! Observe como você acordou hoje e como se sente. Durante o dia sorria para alguém, encontre pessoas.
  2. Quando fizer escolhas, opte por coisas que favoreçam o seu crescimento. Abra-se para experiências novas e desafiadoras!
  3. Seja verdadeiro. Decida sozinho o que você fará amanhã ou agora, independente do que os outros irão pensar. Seja você mesmo!
  4. Seja honesto com você mesmo e assuma as consequências de suas escolhas. Não adianta chorar pelo leite derramado! Se permita errar o caminho, volte e tente de novo, porque não há GPS na estrada da vida!
  5. Viva intensamente os momentos especiais na sua jornada. Não há muitos momentos especiais em sua vida? Invente-os! Contemple o por do sol, alimente um faminto, ensine alguém a ler.
  6. Não se prenda aos resultados, porque autoatualizar-se é um processo. Afinal, o que vale não é o destino, mas a viagem. Escolha o caminho mais criativo, mais agradável, não o mais fácil!
  7. Reconheça suas próprias defesas. Para superar suas limitações você precisa primeiro reconhecê-las. Superar a si mesmo é a maior de todas as vitórias.
8. Eu acrescentaria mais um: sentir-se útil. Penso que é muito importante sentir que sou útil ao próximo. Servir ao próximo é um privilégio que somente pessoas autoatualizadas podem desfrutar. Faça algo por alguém!
Fácil alcançar tudo isso? Não. Escrevo este texto primeiro pra mim, porque não estou conseguindo dar o meu melhor, nem pra mim nem pras pessoas que encontro no caminho. Mas não é impossível. Vou recomeçar! 
Então? Vamos preparar as malas? Não vamos levar muita coisa, comecemos tirando o que não é essencial. Deixemos espaço para as coisas novas que encontraremos no caminho. Comece aos poucos e quando você menos perceber... a viagem estará sendo uma delícia! BOA VIAGEM!

sábado, 19 de novembro de 2011

Ei mãe, não sou mais menino...cresci!

Nossa roda de terapia comunitária foi singular. Ninguém apresentou um problema específico, fiquei no vácuo, como diriam os adolescentes. Porém, uma participante, que no passado apresentara um problema, passou a nos dar um “feedback” de como superou seu problema. Ela está se adaptando à condição de avó e sogra. Ela disse que confiava que o filho, de 17 anos, iria dar conta da nova responsabilidade de ser pai. Outra participante disse: é muito difícil chegar a este nível de maturidade, pra mim é difícil aceitar que meus filhos não precisam mais de mim. Pronto! Surgiu uma dificuldade na roda de terapia.
Perguntei para o grupo quem um dia já se surpreendeu com o filho e disse: Meu filho cresceu e eu não vi!! Como foi esta experiência pra você? Então, de acordo com o desenrolar das falas eu ia refazendo a pergunta de modo diferente. Como foi pra você ter outra mulher dentro de casa? Como é perceber que o seu filho não é mais uma criança, que está independente? Como você superou, se adequou, a esta mudança?
Ei mãe, não sou mais menino! Ouça a música com Eramo e Frejat
Várias pessoas compartilharam suas dificuldades. Uma jovem mãe compartilhou a surpresa que teve ao chegar a casa e ver que a filha havia preparado o jantar. Uma mãe experiente surpreendeu-se com sua filha caçula menstruando tão cedo. Outra que se assustou por ser chamada de sogra. Uma disse que se sentiu traída ao saber que a filha havia viajado sem avisá-la, disse ainda que sente necessidade de preencher sua vida com outras coisas, pois os filhos não ocupam mais o seu tempo.
Parece que nós, mães e pais, não estamos preparados para vermos nossos filhos baterem asas e voar. Vivemos em função dos filhos de tal forma que não percebemos a hora em que devemos confiar na competência de suas asas, que nós alimentamos no passado. Como diz o sábio ditado popular: Criamos os filhos para o mundo. Penso que eles nos apontarão a direção que deveremos seguir. Os meus filhos já estão sinalizando que logo estarão prontos. E os seus já deixaram o ninho? Não deixe seu ninho vazio, descubra novas formas de preencher sua vida!

domingo, 13 de novembro de 2011

Você já experimentou o REMOVE-DOR?

O livro “infantil” O Colecionador de Segredos, de André Neves e Márcia Silva está repleto de metáforas interessantes. Os autores nos contam, brilhantemente, como ao longo de nossas vidas colecionamos coisas, uns lembranças, outros medos e há os que colecionam preocupações. 
Mas existe uma forma de nos desfazermos destas coleções. Uma das personagens do livro descobre o REMOVE-DOR. Eu gostei muito desta expressão. O removedor que usamos para retirar uma tinta que cai no chão ou uma graxa, limpa o que antes estava manchado. Em nossa vida é assim, colecionamos dores, e quanto mais as acumulamos mais nos habituamos a elas. 
Se você coleciona uma dor saiba que existe um produto que pode removê-la. Mas os seus problemas não acabaram (parafraseando as organizações Tabajara), poderão ser, apenas, minimizados com o REMOVE-DOR. Penso que há bilhões de REMOVE-DORES no mundo, porque cada pessoa precisa de um tipo de REMOVE-DOR específico. Um alerta: este produto não é encontrado em mercados, nem em farmácias e não tem receita ou bula. O REMOVE-DOR do qual estou falando não é um REMÉDIO, que mascara a sua DOR. Então, eu não posso prescrevê-lo, porque só você pode descobrir o REMOVE-DOR apropriado para a sua dor. 

É preciso estar atento à dor que você se habituou a colecionar, para começar a identificar o REMOVE-DOR que fará a reação química adequada para removê-la. Algumas pessoas acostumaram-se a colecionar murmurações, para estas pessoas o removedor poderia ser um exercício chamado gratidão. Outros colecionam tristezas que poderiam ser removidas com um novo ponto de vista em função das coisas boas da vida. Há ainda os que colecionam ilusões, por isso estão sempre se desiludindo...é uma dor após a outra, no amor ou nos negócios. Seja qual for a sua dor, eu espero, do fundo do meu coração, que você possa removê-la e que estas palavras possam lhe trazer esperança. Como disse o profeta Jeremias: Quero trazer à lembrança o que pode me dar esperança!

sábado, 22 de outubro de 2011

Terapia Comunitária e Psicodrama

Há muito tempo que eu desejo trabalhar com esta dobradinha TCI e Psicodrama. O desejo pode mover montanhas. Eu e Arthur, que estamos conduzindo o grupo de TC no TST, combinamos que assim que houvesse oportunidade introduziríamos com o Psicodrama. Destaco que há muita proximidade entre as duas abordagens. Como diz uma amiga, somos primos. Um dos objetivos do psicodrama é investigar as dificuldades ao desempenho livre, espontâneo criativo das nossas condutas ou papeis.
Após nos aquecermos, nos passos da TC, seguimos para o momento em que a participante, cujo tema foi eleito, apresenta com detalhes seu sofrimento. Éramos 25 pessoas. A protagonista desta semana é uma participante regular do grupo, ela sempre apresenta os muitos conflitos familiares em que está inserida. Ela já participa a uns 6 meses, desde que soube da gravidez da filha e a colocou pra fora de casa. Na semana anterior ela falou da dificuldade em relacionar-se com o marido. Esta semana voltou com a dificuldade que tem em perdoar a filha, em abraçá-la. Então eu perguntei: o que você gostaria de dizer pra sua filha? Arthur acompanhou meu movimento e convidou nossa protagonista a escolher alguém para ser a sua filha.
Ela disse à filha, de 19 anos, que queria para ela um futuro melhor, uma vida de estudo e trabalho, não de filhos. A filha disse que se sentia muito só, com medo, desamparada pelo fato de a mãe não apoiá-la. A protagonista pode conscientizar-se sobre o que sente e que a filha sofre com a distância da mãe. Após conversarem, sempre orientadas pelo diretor da cena, a protagonista disse que tem vontade de abraçar a filha, mas lhe falta coragem. O diretor apresentou a ela um participante da plateia, que tem uns 120 quilos, e perguntou: este tanto de coragem te ajuda? A coragem a conduziu até a filha, que abriu os braços para a mãe e as duas se abraçaram, com muita emoção.
Por fim, partilhamos o que cada um sentiu, duas pessoas da plateia contaram como superaram a dificuldade de perdoar e aceitar. Na TCI falar é o caminho para a cura. Mas há casos em que a pessoa não se conscientiza do que está falando e sofrendo. Assim, acredito que neste caso específico foi essencial a representação. O Psicodrama é uma metodologia muito fértil no momento da contextualização. Em seguida realizamos a partilha das experiências. Uma das funções da partilha é ajudar o protagonista a perceber que ele não está só, que outras pessoas também têm ou tiveram a mesma dificuldade que ele. Outra função essencial é a de o protagonista perceber-se útil ao ver como outros participantes aprenderam com a sua representação. Alerto que o terapeuta comunitário deve ter alguma capacitação em psicodrama para poder aplicá-lo.