segunda-feira, 17 de maio de 2010

Psicoterapia de Grupo: teoria e prática (Irvin Yalon)

Neste capítulo Yalon divide a experiência terapêutica em 11 fatores primários e discute os primeiros sete: Instilação de esperança é importante que terapeuta e paciente tenham expectativas semelhantes quanto ao grupo. Ter uma postura positiva diante das questões trazidas é essencial, assim todos começam a compartilhar tais expectativas de sucesso. A universalidade é quando o paciente descobre que não é único no seu problema, que outros compartilham ou já compartilharam da sua dor. Este aspecto é importante fonte de alívio no início da terapia.
Compartilhar informações: o terapeuta tem uma postura didática para com o grupo, os participantes, no início do grupo, querem dar conselhos, mas com o tempo descobrem que simplesmente podem aprender uns com os outros. O altruísmo é importante porque as pessoas precisam sentir que são úteis na vida dos outros, é um componente para a cura. Recapitulação corretiva do grupo familiar primário: os grupos de terapia se parecem muito com uma família, nas relações e papéis que cada um ocupa. O paciente manifesta, no grupo, os comportamentos que normalmente exerce na família. Ali ele aprende a reconhecer tais comportamentos e a modificá-los no seu dia-a-dia. O desenvolvimento de técnicas de socialização acontece de forma semelhante, inicialmente por imitação depois que o indivíduo saiu da inércia ele descobre, sozinho, novas formas de socialização.
Yalon, Irvin D., (2006). Os fatores terapêuticos. In: Psicoterapia de Grupo: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed. Capítulo 1

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Descobri que sou mais corajosa do que pensava

A TC da semana passada com o grupo no trabalho foi novamente sobre a greve. Antes os participantes deste grupo de TC iriam realizar a greve, agora eles estavam avaliando a greve. Conseguiram um pequeno aumento de salário e um maior no ticket alimentação. Varias pessoas falaram sobre como se sentiram na semana da greve. Apenas os trabalhadores que participaram da greve contaram suas experiências: “aprendi a lutar contra o medo”; “descobri que sou mais corajosa do que pensava”; “aprendi que a união, realmente, faz a força”. Percebeu-se que eles estavam muito orgulhosos e comprometidos uns com os outros, a TC foi uma oportunidade para que cada um pudesse avaliar a si mesmo e refletir sobre as conseqüências de suas ações ou omissões.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Bullyings na escola

A TC com os meninos adolescentes teve como tema os conflitos escolares. Um garoto contou que brigou com a professora, "gorda e chata". Por isso foi expulso da sala de aula. Outro contou que teve todas as notas a baixo da média. Um terceiro disse que se meteu numa encrenca daquelas: "bati num moleque, quebrei o braço dele". Num primeiro momento ouvimos os três. Em seguida lançamos o mote: Quem já passou por dificuldades na escola e como superou? Após algumas falas, passamos a focar nas formas de violência na escola. Quem já passou por dificuldades com violência na escola e como superou? Como controlar a agressividade? Vários garotos responderam ao mote com dicas como: Contar até 10 antes de agir, sair de perto do provocador, não provocar, pensar nas consequências (você pode ir pra uma instituição, ou ficar conhecido como o garoto briguento da escola). Alguém contou que nunca brigou na escola. Concluímos que é difícil controlar a raiva, mas que é possível. O garoto que agrediu disse que vai evitar brigas, porque não quer envergonhar a sua mãe.
Sugestão de links: http://www.youtube.com/watch?v=uMwOexrV6fM (vídeo de Albert Bandura)
Bibliografia sugerida: Fante, Cleo; Pedra, J. Augusto. Bullying escolar: perguntas e respostas. Porto Alegre. Artmed, 2008.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

TC com tema preestabelicido

Quando a TC é constante em um local e os participantes são sempre os mesmo há a necessidade de inovar algumas vezes, para manter a motivação e estimular a participação e interesse. Todo mês escolho um dia, preferencialmente próximo a uma data comemorativa e faço uma roda diferente.
Nesta semana comemoramos os 50 anos de Brasília. Trouxe como mote a seguinte pergunta: O que Brasília representa para a história de sua família? As histórias foram muitas. "Brasília foi uma oportunidade na minha vida"..."Minha mãe se libertou da violência de meu pai vindo pra cá"..."Eu odeio Brasília...Vim pra cá pequena e minha mãe foi embora...meu pai criou os três filhos sozinho".
Nesta roda os participantes tiveram a oportunidade de resgatar e reconhecer as competências de suas famílias. Relembraram que são capazes de transformar a dor em amor. Por exemplo: a mãe, que abandonou a família, retornou após 25 anos, a única que lhe estendeu a mão foi esta jovem que nos contou sua história. Hoje a mãe mora na casa da filha.

Sofrimento do Trabalhador na TC

Na Terapia do dia 15, com o grupo de terceirizados da área de limpeza, convidei um terapeuta corporal para conduzir a dinâmica, foi um sucesso, todos gostaram e se sentiram muito relaxados. O tema sobre a greve foi escolhido quase que por unanimidade. Eles estavam muito ansiosos sobre as condições em que fariam a greve. Alguns com medo de serem demitidos, outros resignados a realizar a greve a qualquer preço. Quem apresentou o tema estava decidido a participar da greve e incomodado com a dúvida dos outros. Uma terapia no ambiente de trabalho com um tema como este deve ser conduzida com muito cuidado. O terapeuta não pode posicionar-se de forma que tome partido, também, penso eu, não pode se omitir. Cada pessoa pensa de uma forma e deve ser respeitada na TC, inclusive a terapeuta. As falas foram de confronto entre os que queriam que todos fizessem greve e os outros que ficaram se justificando:"tenho que pagar contas no fim do mês, sou sozinha!" Conduzir uma roda em que o conflito é latente e as discussões iminentes, não é fácil, mas possível. Para isso o terapeuta deve ser respeitoso e intervir sempre que perceber que o conflito pode vir a tona de forma intolerante. Como resultado todos aprendemos que podemos conviver com a diferença e que juntos podemos lutar por nossos direitos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Responsabilidade Social Começa em Casa

Quando falamos em responsabilidade social pensamos em cuidar do planeta, reciclar o lixo ou ceder o espaço físico da empresa para a comunidade. Uma experiência de responsabilidade social inovadora é a Terapia Comunitária no ambiente de trabalho. Neste grupo percebeu-se que os participantes redescobriram seus potenciais e competências, o que resultou na melhora da auto-estima dos participantes e busca por melhor qualificação. Na TC os trabalhadores compartilham estratégias para conviver melhor com a família, os colegas, o trabalho e a chefia, pois alguns problemas de relacionamento são trazidos para o grupo. Como resultado percebe-se melhoria na comunicação e aumento do sentimento de união. A empresa não pode ignorar a necessidade que o ser humano tem de verbalizar, de compartilhar e socializar-se. Por aplica-se a qualquer grupo de pessoas a TC pode ser implementada em todos os níveis hierárquicos da empresa, visto que todos necessitam de um espaço para falar. Na TC um aprende com a experiência do outro, o que favorece o acerto. Como, por exemplo: ao ver que um colega ficou doente porque não cuidou de sua saúde no trabalho o outro participante passa a fazer da ginástica laboral uma rotina diária, diminuindo a incidência de doenças ocupacionais. A instituição que se dispuser a desenvolver um grupo de TC com seus empregados e colaboradores perceberá aumento da integração entre eles; melhoria na comunicação entre os trabalhadores e a instituição; crescimento da motivação e maior busca por qualificação; satisfação com o ambiente de trabalho e maior qualidade de vida e saúde no trabalho. Está comprovado que pessoas que falam sobre seus sentimentos como raiva, mágoa e dificuldade em perdoar possuem mais saúde que pessoas que guardam tudo para si. Nosso trabalho indica que os órgãos e empresas que demonstram um compromisso social com o trabalhador, no nosso caso o terceirizado, colhem frutos. Valorizar empregados e colaboradores, comprometendo-se com a qualidade de vida dos trabalhadores, é uma das diretrizes para a empresa tornar-se socialmente responsável.

A cura de Schopenhauer (final da resenha)

Os seis meses de sessão, antes combinado, parece não ter efeito sobre Philip, que continua aparentemente intocável. Dr. Julius se questiona se de fato quer ajudar o paciente ou quer ver a mudança por vaidade. Mas Philip pede para continuar até à última sessão do grupo e começa a interagir com o grupo: fala, incomoda-se, pensa sobre o que foi trabalhado no grupo durante a semana e começa a se envolver e emocionar-se com as discussões no grupo. Tais comportamentos vão contra a sua filosofia de vida que Philip adota (a de Schopenhauer). Philip percebe que precisa descobrir suas próprias respostas, que a máxima Schopenhaueriana de que “viver é dor e tédio” não vale para todos. O livro chega ao ápice na penúltima sessão este trecho é narrado de uma forma brilhante que emociona o leitor, levando-o a descobrir que muito do que Schopenhauer escreveu é uma verdade universal: “a vida pode ser comparada a um bordado que no começo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos”. Vários trechos levam o leitor a refletir sobre a questão ética no trabalho de um terapeuta. Seria correto usar a filosofia como recurso para aconselhamento terapêutico? Como as sessões seriam conduzidas? Que técnicas seriam usadas? O terapeuta poderia ser apenas um filósofo como Philip ou deveria conhecer técnicas psicoterápicas? Será que alguém como Philip estaria apto a atender pessoas e a ajudá-las? É muito provável que alguém que optou por não se relacionar com outras pessoas não consiga ajudar um outro em suas dificuldades, visto que a maioria das dificuldades humanas decorre da interação com o outro. Por outro lado possuir habilidade para lidar com o paciente não é suficiente para caracterizar um terapeuta. A motivação para exercer tal profissão é essencial nesta profissão. Além da qualificação e da facilidade em interagir com o paciente o profissional deve querer ajudar. Mesmo que existam outras causas como a vaidade ou orgulho do Dr. Julius não o desqualificam como terapeuta, antes mostra sua humanidade. Nada do que fazemos possui uma única motivação. Sempre há interesses secundários norteando nossas ações. Todo curioso em conhecer a alma humana e fãs das terapias de grupo tem a obrigação de viajar pelas páginas deste livro.

domingo, 11 de abril de 2010

Minha filha de 14 anos está namorando

Esta semana o grupo com os terceirizados trouxe um tema familiar. Uma participante conta que perde o sono ao lembrar que a filha de 14 anos está namorando. Fomos ao cinema, e ao terminar o filme eu chorarava muito, mas não era pelo filme era por ter visto minha filha beijando na boca.
Outra participante narrou sua história: a filha de 19 anos começou a namorar e logo estava grávida. Ela disse: Sofri muito, chorei uns 3 dias. Hoje, quando chego em casa, uma benção vem me receber na porta, me chamando de vovó!
A reflexão girou em torno de que temos medo de perder pessoas que são dependentes de nós. Outra questão que veio a baila foi o fato e a filha já ter um corpo de mulher, ser desejada e a mãe estar sozinha, sem um companheiro. Fechamos com a conclusão de que tudo na vida passa, que envelhecemos e cada etapa da vida é bela, difícil são as transições. Como por exemplo deixar de ver a filha como criança para vê-la como mulher.
Sugestão de livro: ZALCBERG, Malvine. A Relação mãe e filha. Ed. Campus. 2002.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A cura de Schopenhauer (continuação)

Resenha do livro de Yalon
O grupo é composto por três mulheres e três homens. Uma das integrantes foi aluna de Philip, e uma de suas presas sexuais no passado. Ela o insulta sempre que possível. No início Philip só fala quando questionado, e sempre citando Schopenhauer. Tanto Philip quanto Schopenhauer são muito parecidos. Ambos viviam sós, almoçavam sós e não encontravam ninguém a sua altura para se relacionarem. Schopenhauer sofria de depressão crônica e segundo historiadores morreu com sífilis. Schopenhauer escreveu que “depois do amor à vida, o sexo é a maior e mais ativa força e ocupa quase todas as vontades e pensamentos da porção mais jovem da humanidade. Ele é a meta final de praticamente todos os esforços humanos. Exerce uma influência desfavorável nos assuntos mais importantes, interrompendo a toda hora as ocupações mais sérias, e às vezes inquieta por algum tempo as maiores mentes humanas... o sexo é realmente o alvo invisível de toda a ação e conduta e surge em toda parte, apesar dos panos que são jogados em cima dele, motivo de guerra e objeto de paz”. Uma das grandes revelações do livro é a afirmação de que Freud era um Schopenhauriano nas suas afirmações sobre o sexo. O que Freud chamou de energia ou pulsão é parecido com o que Schopenhauer chama de vontade, que é a busca pela satisfação ou felicidade, quando algo parece saciar-nos imediatamente surge outro vazio, outra necessidade. Assim há uma eterna busca pelo prazer. Para Schopenhauer ninguém pode ser feliz. Todo ser humano passa a vida buscando algo, pensando que vai fazê-lo feliz mas nunca alcança, e, quando alcança se desaponta, descobre que o que buscava não saciava a busca, que é eterna. “...a vida não é senão o momento presente, que está sempre sumindo...”

sábado, 3 de abril de 2010

Sugestão de dinâmica

Cada dinâmica deve ser realizada num contexto específico, a dica de hoje é para ser desenvolvida com um grupo que já se conhece, com encontros constantes. Formam-se pequenos grupos de 8 a 10 pessoas. Todos devem estar bem próximos, de ombro a ombro, em um círculo. Escolhe-se uma pessoa para ir ao centro. Esta pessoa deve fechar os olhos (com uma venda ou não), deve ficar com o corpo totalmente rígido, como se tivesse hipnotizada. As mãos ao longo do corpo tocando as coxas lateralmente, pés pra frente, tronco reto. Todo o corpo fazendo uma linha reta com a cabeça. Ao sinal, o participante do centro deve soltar seu corpo completamente, de maneira que caia, confiando nos outros participantes. Os colegas devem empurrar o "joão bobo" de volta para o centro, com as palmas das mãos. Como o corpo vai estar reto e tenso sempre perderá o equilíbrio e penderá ora para um lado, ora para outro. O movimento é repetido por alguns segundos e todos podem participar indo ao centro. Se o grupo for muito grande deve-se fazer duas ou mais rodas.

RESENHA A cura de Schopenhauer

O livro narra a história de um psicanalista, Dr. Julius Hertzfeld, que aos 65 anos descobre que está com um câncer de pele, poderá viver no máximo mais um ano. Após o choque, ele inicia um processo de auto-avaliação. Questiona se seu trabalho foi útil para alguém ou se todos os pacientes que teve alcançariam, em algum momento da vida, a cura sem a sua ajuda. Começa a olhar anotações de antigos pacientes. Fica curioso com o caso de Philip Slate, seu paciente por três anos.

Philip era um químico, dominado por impulsos sexuais, chegava a transar com três mulheres numa noite, na tentativa, em vão, de se satisfazer. Após vinte anos sem saber como Philip estava, Dr. Julius resolve procurá-lo. A surpresa foi enorme: Philip estava “curado” e formado em aconselhamento filosófico. Philip diz que o método do Dr. Julius não o havia ajudado em nada, mas que Schopenhauer o havia curado. Para iniciar os atendimentos de orientação filosófica Philip necessita ser acompanhado por um profissional da área de aconselhamento. Assim, propõe ao Dr. Julius que seja seu supervisor, em troca ele daria aulas sobre como Schopenhauer pode ajudar uma pessoa. Dr. Julius aceita na condição de que Philip freqüente durante seis meses as sessões semanais de terapia de grupo. Apesar de não gostar da idéia de ter que se relacionar semanalmente com um grupo de pessoas, ele não convive nem transa com ninguém há vinte anos Philip concorda, desde que as sessões valham como supervisão. Dr. Julius não considera ético que sessões de terapia sejam contada como horas de supervisão de atendimento de um iniciante, ele sempre foi extremamente ético em sua vida profissão. Mas agora no final da vida abriu uma exceção, afinal corrigir o que ele considera uma falha, não ter ajudado Philip no passado, era mais importante.

Continua...

YALOM, IRVIN D. (2005). A cura de Schopenhauer. Rio de Janeiro: Ediouro.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A arte de perguntar na Terapia Comunitária

Por Roberto Faustino de Paula

Cada pergunta formulada pelo terapeuta possui alguma intenção e alguma hipótese a ser testada. Estrategicamente falando, o terapeuta pode estar imbuído de diferentes intenções, ao fazer os quatro tipos de perguntas seguintes: 1. Perguntas lineares (caráter investigativo) 2. Perguntas circulares (caráter exploratório e de curiosidade) 3. Perguntas estratégicas (efeito corretivo) 4. Perguntas reflexivas (desencadeiam uma atitude reflexiva acerca dos sistemas de crença preexistentes na família, pressupondo que seus integrantes são seres autônomos e não podem ser instruídos diretamente) Cada uma dessas perguntas, com as respectivas intenções acima descritas, tende a provocar diferentes efeitos seja nos pacientes como nos terapeutas.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A TC como forma de recordar a minha competência

A TC com crianças e adolescentes desta semana contou com 14 meninos e uma menina. Iniciamos com duas dinâmicas, a do pato, aprendi com a Perlucy e a do burrinho, com a Pedrita. Houve apenas um tema, sobre dificuldade de aprendizagem na escola, especificamente, português. O grupo todo estuda na rede pública e os pais não sabem ou não podem ensinar, cobrar e motivar seus filhos nos estudos.
A pergunta lançada para o grupo foi: "Quem já teve dificuldade em aprender algo e como conseguiu aprender?" Surgiram 4 falas, argumentando que: não desistiu e estudou, reconheceu que não sabia e pediu ajuda, esforçou-se estudando sozinho.
Reflexão: Quando, em uma TC o participante ouve que outras pessoas reconhecem suas dificuldades e que conseguiram vencê-las, acontece algo especial com aquele que ouve. O participante se identifica com a dificuldade, vê que todos temos dificuldades, relembra que já venceu algumas e se empodera para enfrentar os desafios pelos quais está passando. Assim, o participante passa a ver sua dificuldade como algo passível de ser superado. Ora, se eu e o meu colega vencemos uma dificuldade no passado, posso vencer a que estou vivenciando. A TC ajuda o participante a recordar e empoderar-se de suas competências: acreditar que é capaz.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Dicas para TC com um grupo regular

As dinâmicas na TC são extremamente importantes para estimular as pessoas a falar e confiar no outro. Em um grupo que toda semana participam as mesmas pessoas fica complicado, pois tenho que ser muito criativa. UFA!
O que tenho feito para animar e dinamizar o grupo? Fiz o cronograma do ano, selecionei as datas comemorativas, como o dia do Trabalho. Nas TC próximas às datas comemorativas eu lanço o monte, por exemplo: O que você tem comemorar ou lamentar no dia do Trabalho? No Dia Internacional da Mulher. Perguntei que palavra te lembra mulher? Após todos falarem eu pedi para elas conte um momento de sua vida em que você foi guerreira (forte, mãe sedutora, corajosa, amorosa), os homens contaram de suas experiências com mulheres especiais.
Outra forma de fazer algo diferente é realizar uma dinâmica e ouvir como cada um se sentiu ao participar da dinâmica específica. Dicas: A dinâmica da cadeira solidária rendeu mais de uma hora de discussão. Você também pode contar uma história, um causo e lançar o mote coringa: Quem já viveu algo parecido e o que fez para solucionar? Atenção: a história deve ter relação com o grupo e para isso você deve conhecer bem as pessoas e o contexto social, econômico e cultural do grupo.

A TC como ponte entre o mundo real e o possível

A TC como espaço de reflexão social Na semana passada o tema da TC com os terceirizados voltou a ser sobre sofrimento no trabalho. "Estou indignada, porque nem no horário de almoço eu posso descançar...eles trancaram o vestiário, só abrem 15 minutos antes da saída, não posso nem pegar uma coisa na bolsa".
Hoje, uma semana depois, o tema continua. Eles estão indignados com a forma como são tratados no trabalho. Dizem: "me sinto como se eu não existisse", "tô me sentindo um lixo, um saco de lixo".
O tema de hoje trouxe a oportunidade de discutirmos sobre o mundo da terceirização, mais uma vez... Falamos que o sistema não vai mudar. Perguntamos: vc veio ao mundo a passeio? Qual o seu papel aqui? Por fim levantamos uma reflexão: O que estou fazendo com a minha vida? O que estou permindo que os outros façam com a minha vida?
A TC tem se revelado como um espaço para falar sibre o que incomoda cada participante, refletir sobre estes incômodos em grupo, cada um pode avaliar de forma crítica o seu comportamento na vida, no trabalho e na relação com o outro.A TC é uma ponte entre o participante e a possibilidade de uma vida melhor.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A Terapia Comunitária com crianças e adolescentes - modelo de vínculo saudável

Um dos grupos de TC que participo é com meninos, de 8 a 18 anos, da periferia de Brasília. Percebo que em um ano e meio de roda os meninos mudaram a forma de se relacionar conosco. O modelo de vínculo que eles possuem é evitativo ou ambíguo. Por exemplo: um dos garotos do grupo apanha diariamente, está sempre na rua. Uma noite quando chegou em casa o padrasto disse: "hoje você não apanhou, ? Vem cá que vou te dar um abraço!" Quando o garoto se aproximou ele bateu com um pedaço de pau. O modelo de vínculo que estes garotos encontraram nos terapeutas e facilitadores do projeto é de segurança, respeito e confiança mútua. A constância do afeto na TC, o não julgamento e a acolhida sem censura, mas com firmeza, fez com que eles aprendessem a lidar com uma forma nova de se relacionar, de dar e receber outros afetos. A segurança no novo vínculo, com os adultos e entre si, abre uma nova possibilidade de relacionamento. Agora, eles possuem um modelo saudável de vínculo seguro e podem repetir este modelo com outras pessoas que conhecerem ao longo de suas vidas, professores, colegas e ingressar na sociedade com outro olhar. Graças à experiência de aceitação que vivenciaram na TC eles poderão ter a segurança de que podem ser aceitos na sociedade.

terça-feira, 23 de março de 2010

Meu problema são umas baratinhas que não querem morrer...


Um dia, em uma sessão, havia 32 participantes, eu perguntei quem tinha algum problema pra compartilhar, algo que está incomodando e precisa ser colocado pra fora. Silêncio total. Dava pra ouvir o coração da pessoa que estava ao meu lado. Eu insisti e insisti. Uma Senhora levantou a mão e disse: "eu tenho um problema que tá me tirando o sono, penso nisso o dia inteiro porque não encontro uma solução. Alguém aqui sabe me dizer que veneno mata umas baratinhas brancas, que não morrem por nada?
Eu, como terapeuta, pensei em sumir. E agora? Será que outra pessoa vai falar um problema mais interessante? Um problema psicológico, uma tragédia pessoal? Silêncio total. Será que hoje vamos falar sobre veneno de pra barata? Então eu lancei o mote: Quem aqui já teve uma praga em sua vida?
As respostas foram surpreendentes e emocionantes. Histórias de mulheres que foram perseguidas pelos maridos (pragas em suas vidas) e conseguiram fugir deles, mudando de cidade ou denunciando. Uma jovem disse que ela havia sido uma praga na vida de alguém: eu perseguia o cara...era louca por ele...não dava paz, nem pra ele e nem pra mim. Após muito sofrimento ela mudou-se para Brasília para evitá-lo.
A TC é assim, quando menos se espera as histórias e experiências de vida se revelam. Saber ampliar o tema, dar a ele um outro sentido, transitar do concreto para o abstrato é algo que temos aprendido nas rodas.

segunda-feira, 22 de março de 2010

ESCUTATÓRIA - Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que 'não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma'. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia. Parafraseio o Alberto Caeiro: 'Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma'. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos... Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: 'Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado'. Segunda: 'Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou'. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: 'Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou'. E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio,[...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas). Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

A Terapia Comunitária e a terceirização

A terceirização pode ser definida "o ato de transferir a responsabilidade de um serviço, ou de determinada fase da produção ou comercialização, de uma empresa para outra“ (Repullo, 1997). O trabalho, para a psicodinâmica, “faz parte da constituição da subjetividade do sujeito, implicando em ação do sujeito sobre a realidade, sendo o real o que se faz reconhecer pelo sujeito” (Dejours, 2007). O autor considera que vivenciando o sofrimento o trabalhador pode desejar vencê-lo, ressignificá-lo, transformá-lo. Para a psicodinâmica as vias da transformação são: o uso da palavra e a mobilização dos trabalhadores. A Terapia Comunitária atua, inicialmente, como via de transformação com o uso da palavra. A TC no ambiente de trabalho cria um espaço para que a fala circule e os trabalhadores possam encontrar, na fala, uma via para ressignificar o sofrimento, viabilizando a mobilização dos trabalhadores. Em função do sofrimento no trabalho percebe-se danos psicológicos, como: tristeza, sensação de abandono/desamparo, baixa auto-estima, desesperança e conformismo. O objetivo deste trabalho é discutir os sofrimentos vivenciados pelos trabalhadores que participam com regularidade de um grupo de Terapia Comunitária – TC no ambiente de trabalho. O texto faz uma articulação entre os conceitos da Psicodinâmica do Trabalho e a TC. Apresentando a TC como via de transformação do sofrimento no trabalho.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Terapia Comunitária no ambiente de trabalho

Os participantes desta roda de TC que realizo são trabalhadores terceirizados da área de conservação e limpeza, responsáveis pela manutenção da limpeza em dois prédios de 6 andares cada um. Ao todo são 183 terceirizados de manutenção e conservação, com jornada de 44 horas semanais, trabalhando inclusive aos sábados. O grupo de trabalhadores que participa da roda é formado por mulheres (em maior número) e homens que ganham um salário mínimo e moram em cidades satélites e Entorno, região do Goiás próxima ao Distrito Federal. Quanto à carga de trabalho, além das 8 horas, estes trabalhadores moram longe e em função da natureza do trabalho são obrigados a ficar em pé grande parte do tempo, acarretando problemas de saúde como dores nas pernas e problemas de circulação. Alguns pegam peso em demasia, o que leva a problemas ortopédicos, como coluna e outros. Pelo fato de não terem estabilidade no emprego, eles podem ser demitidos ou transferidos a qualquer momento. Em função disso o grupo está sempre com novos participantes, apesar de existir participantes que nunca faltam, muitos saíram e novos estão sempre chegando. Percebemos que o discurso dos novatos, nos primeiros encontros, também é de negação do sofrimento: “só tenho a agradecer, não tenho nenhum problema” ou “fiquei preocupada em vir para este prédio, onde eu não conhecia ninguém, mas tudo que Deus faz é pro meu bem”. Para a Psicodinâmica do Trabalho o trabalhador deve reconhecer o sofrimento, para vivenciá-lo e assim transformá-lo em prazer. A luta contra o sofrimento pode se dá de maneira individual e coletiva. Essa luta caracteriza-se pelo ocultamento ou identificação do sofrimento, sob a forma de patologia, ou enfrentamento efetivo de causas enraizadas na situação de trabalho. (Dejours, 1994). O autor aborda algo que é um dos princípios da TC comunitária: o que não falamos com a boca pode se manifestar através de doenças/patologias. A TC age como prevenção primária (OMS), que compreende todos os atos destinados a diminuir a incidência de uma doença em uma população para reduzir os riscos de aparição de novos casos. A capacidade de transformar o sofrimento em prazer é o que na TC chamamos de resiliência. Na TC nós não buscamos diagnosticar os problemas, queremos sim: Identificar e suscitar as forças e as capacidades dos indivíduos, das famílias e das comunidades para que, através desses recursos, possam encontrar as suas próprias soluções e superar as dificuldades impostas pelo meio e pela sociedade (Barreto, 2008, p. 32) Hoje, muitos sofrimentos são reconhecidos e trazidos para a roda. Uma das questões trazidas pelos participantes é que eles se sentem engessados pelas normas do trabalho, que eles definem como inflexível, com quase nenhuma autonomia. A Psicodinâmica doTrabalho considera que a organização do trabalho é saudável quando oferece oportunidades para negociação, ou seja, quando há uma certa liberdade para o trabalhador ajustar a realidade de trabalho aos seus desejos (Mendes, 2008). Ou seja, um trabalho saudável é aquele que é flexível, que permite ao trabalhador ser criativo.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Terapia Comunitária

A Terapia Comunitária – TC está fundamentada em cinco pilares: Pensamento sistêmico, teoria da comunicação, antropologia cultural, pedagogia de Paulo Freire e capacidade de resiliência do ser humano. A TC é um procedimento terapêutico, que pode ser realizado com qualquer número de pessoas, em qualquer nível socioeconômico, com a finalidade de promover a saúde e a atenção primária em saúde mental. Funciona como fomentadora de cidadania, de redes sociais solidárias e de identidade cultural das comunidades. Por ser um trabalho em grupo, atinge um grande número de pessoas, abrangendo questões individuais, familiares, institucionais e sociais. Alguns objetivos da Terapia Comunitária merecem ser lembrados no contexto do trabalho: redescobrir e reforçar a confiança em cada indivíduo diante de sua capacidade de evoluir e de se desenvolver como pessoa; reforçar a auto-estima individual e coletiva; reforçar a dinâmica interna de cada indivíduo promovendo as potencialidades e a autonomia (Barreto, 2008).